Diários de Uma Feminista. Tecnologia do Blogger.

Feminismo branco, o que é?


Feminismo Branco é uma expressão que designa o feminismo das feministas (brancas) que não faz recorte de etnicidade, que universaliza o ser-mulher, que ignora os privilégios de etnia/cor das mulheres brancas e que não contempla em suas pautas as dificuldades  específicas que atingem as mulheres negras somente pelo fato de elas serem negras. Não é em si uma vertente (como a interseccional, marxista, negra, indígena etc), pois nas vertentes existem a defesa política de pautas e recortes teóricos específicos e o que ocorre com o ''feminismo branco'' é mais a manifestação de uma estrutura: o racismo e a invisibilização da mulher negra na sociedade, o que não deixou de acontecer nem dentro do movimento feminista.

''Só porque sou branca meu feminismo é branco?'', essa é uma pergunta que tenho lido com certa frequência quando surge essa questão do feminismo branco. Devido a isso deixo abaixo minha posição quanto a isso.

Seu feminismo é branco não simplesmente porque você é uma feminista branca.

Seu feminismo é branco quando você não faz recorte de etnicidade nas suas falas, pautas, problematizações. 

Seu feminismo é branco quando você silencia mulheres negras. 

Seu feminismo é branco quando você universaliza a perspectiva feminina com "somos todas iguais" sem considerar as especificidades de opressão pelas quais mulheres negras passam e você não. 

Seu feminismo é branco quando você é contra a legalização do aborto (a serviço das pobres já que as ricas FAZEM de forma segura) ignorando que quem está mais vulnerável socioeconomicamente são as mulheres negras. 

Seu feminismo é branco quando você alega que ''mulher não oprime mulher" ignorando a enxurrada de minas brancas oprimindo as negras. 

Seu feminismo é branco quando você acha que a problemática sobre apropriação cultural é besteira, que não existe isso de "mudar" símbolo de crença, luta e/ou resistência só porque você o usa por achar bonito, por estar na moda etc. (Enquanto quem produz a cultura de forma direta é marginalizado por reproduzir a mesma). 

Seu feminismo é branco quando você alega sofrer racismo reverso numa sociedade pós-escravagista, de padrão cultural brancocêntrico. 

Seu feminismo é branco quando você deslegitima o empoderamento estético-negro. Quando te incomoda ver preta se achando bonita, exaltando o próprio cabelo, a própria cor. 

Seu feminismo é branco quando você não reconhece privilégios e não busca desconstruir seu racismo. 

É da natureza dos privilégios cegar as pessoas privilegiadas, fazê-las enxergar somente aquilo que lhes convém, o que serve pra sustentar seus benefícios e a posição de desvantagem das minorias que buscam contra-hegemonizar. Contudo, é da natureza da desonestidade intelectual ter acesso à informação e continuar com os olhos propositalmente vendados.


PS: Por que o feminismo negro é uma vertente legítima? Exatamente por haver essa estrutura brancocêntrica dentro do movimento feminista, as mulheres negras precisaram criar seus espaços de fala, representação e protagonismo. 
PS 2: Existem militantes que consideram "Feminismo branco" uma vertente, sendo que pra ser feminista branca basta você ser uma mulher branca, posição determinista e reducionista da qual eu discordo.  
PS 3: Ser uma feminista-aliada da luta das mulheres negras não te faz protagonista do feminismo negro (se você não é negra), pois este é pautado e liderado por mulheres negras. Existem outras vertentes que não universalizam a perspectiva brancocêntrica que são aliadas a causa negra, como o feminismo interseccional e o feminismo marxista, nos quais qualquer mulher, independente de etnia, pode ser protagonista. 


Lizandra Souza.

O (não) uso do sutiã e a problematização feminista


A nova onda virtual feminista da vez é problematizar o uso do sutiã sem recorte histórico, social e individual. Por um lado, algumas militantes dizem que ''não usar sutiã é revolucionário'' e que ''a mulher que usa está se prendendo a moldes patriarcais de censura do corpo feminino'', do outro, outras alegam que ''não usar sutiã não é revolucionário ou empoderador'' e que ''só não usa quem tem "peito padrão", quem tem peito pequeno, quem está mais próxima do padrão estético de beleza''. A era do 8 ou 80... Muito pensamento autoritário e extremo/fechado de ambos os lados.

Eu vou problematizar o uso do sutiã enquanto objeto criado pra, por exemplo, ''camuflar mamilos femininos'', "dar outra aparência aos seios da mulher", "evitar [algo natural do corpo humano] que os seios caiam". 

Mesmo depois de mais de um século de sua existência, ainda há hoje todo um tabu sobre o sutiã. Se você o usa e ele aparece um pouco: "uiiiii miga, dá pra ver seu sutiã", se você não o usa "uiiiii miga, dá pra ver seu mamilo". A gente tem os mamilos censurados simplesmente porque os seios da mulher são sexualizados e isso tem muito a ver com o uso do sutiã, sobretudo o de enchimento. "É para esconder o mamilo polêmico", "é para deixar o peito levantado", "é para deixar o peito mais bonito"... 

A gente também não pode esquecer que se há todo um lado negativo, há também um positivo no uso do sutiã, pelo menos para mulheres que não se sentem bem por causa do padrão, para as mulheres com seios muito grandes que sentem desconforto se não usarem sutiã (não que todas essas passem por isso), para as mulheres que simplesmente não se sentem bem com os mamilos aparecendo e que por mais que isso seja fruto de socialização, elas NÃO devem ser intimidadas a deixarem de usar essa peça. 

Agora, ser um ato empoderador ou revolucionário na VIDA de uma mulher vai depender dela e da forma como ela encara o uso ou não-uso do sutiã. Há uma gama de fatores sobre escolher ou não usar essa peça, o que deve permanecer é o respeito as escolhas da mulher. Se você usa sutiã, tem macho que diz que você está fazendo propaganda enganosa, tratando seus peitos como mercadoria. Se você não usa sutiã, os caras parecem que nunca viram mamilo na vida e ficam te encarando/constrangendo. Se você usa sutiã e dá para ver que você está usando um, tem gente que dá logo pitaco. Se você não usa sutiã e dá para ver que você não está usando, tem gente que também dá logo pitaco. Se você não usa sutiã e não tem ''peito-padrão'', vão deslegitimar você. Se você não usa sutiã e tem "peito-padrão" vão dizer que você ''quer se mostrar''. 

Vejam como já tem discurso repressor demais para a gente perder tempo atacando quem usa ou deixa de usar sutiã e quem vê nisso ato de empoderamento próprio.

Lizandra Souza.

Mulher de verdade é aquela que... EXISTE!


Sempre que vejo macho exaltando as "mulheres de verdades" meu globo ocular se contrai e me dá uma pena e vergonha alheia das mulheres que se submetem a isso para agradar macho. Eu não ligo paro o macho, ele que se foda, o que me preocupa são as mulheres que compram isso. 

Mulheres reproduzem machismo porque são socializadas a reproduzi-lo, porque desde que nascemos somos inseridas numa sociedade que faz de tudo e usa de vários mecanismos de internalização do machismo em nós. Dos discursos cotidianos as novelas que nós assistimos, das músicas que escutamos aos livros que lemos. 

Contudo, nós não somos programadas para sermos sujeitos a-críticos a vida toda, nós podemos reverter nossa realidade, ter a iniciativa de não aceitar o status quo ao invés de nos aliarmos e nos alienarmos por ele. NÃO SOMOS ROBÔS. Determinismo a gente deixa no Naturalismo do séc., XIX. 

Mulher de verdade na concepção machiana: submissa, pacata, assujeitada, amélia, abnegada, casta, silenciada, burra, trouxa, iuzomista, sem vida própria. 

Mulher de verdade na concepção de qualquer pessoa que tenha noção do ridículo: aquela que EXISTE independente da opinião alheia sobre ela.

Como saber se uma mulher é de verdade:

Chega na mina e pergunta "oi, você existe?", se ela responder "sim" ou algo do tipo é porque ela é de verdade, se ela não falar nada, ficar sem reação, imobilizada... é porque provavelmente ela é sua boneca inflável que você tenta fazer de mulher! Então, ela não é uma mulher de verdade!

Lizandra Souza.

28 de setembro: dia de ação global da luta pela descriminalização do aborto na América Latina e Caribe



28 de setembro é o dia de ação global da luta pela descriminalização do aborto na América Latina e Caribe. Esse dia foi escolhido por um grupo de mulheres nos anos de 1990, a partir do 5º Encontro Feminista Latino-americano e do Caribe, na Argentina, para ser destinado a divulgação de ideias sobre os direitos e saúde reprodutiva da mulher, sobre as consequências da criminalização do aborto assim como da descriminalização na vida da mulher, sobretudo da mulher pobre. A necessidade de um dia de luta pela descriminalização do aborto se deu pela pouca visibilidade que o tema tem, tratado como tabu ou assunto destinado a ser discutido por todos (Igreja, Estado, Patriarcado) menos a quem mais interessa de fato: a população feminina, em especial a negra e periférica.

Descriminalização do aborto não é só uma questão de gênero, mas também de classe e raça (mulheres brancas ou negras estão mais "vulneráveis" socioeconomicamente?) e de saúde pública. É importante lembrar que ser a favor da DESCRIMINALIZAÇÃO do aborto não é o mesmo que ser a favor de usar o aborto como um método contraceptivo ou incentivar as mulheres a abortar. Até porque o aborto não é uma contracepção, mas uma solução para a pessoa gestante que não quer ter um filho. 

A criminalização do aborto (aborto ilegal/inseguro) NÃO REDUZ o número de abortos. A descriminalização do aborto (se acompanhada da legalização) não reduz e nem aumenta, consideravelmente, o número de abortos, mas REDUZ o número de mulheres mortas em consequência de terem tentado fazer um aborto ilegal e inseguro.

Vamos lembrar que ser contra a descriminalização do aborto NÃO é ser pró-vida, é ser anti-escolha, é ser egoísta, é ser pró-nascimento forçado, é ser a favor que mulheres morram em açougues. 

É anti-escolha e egoísta porque acha que a pessoa gestante deve ser forçada a levar até o fim uma gravidez indesejada, isto é, ter um bebê (que só é bebê depois de passar por um PROCESSO de gestação) contra a sua vontade.
É anti-escolha e egoísta porque acredita que o governo deve ser autorizado a intervir e ditar se alguém pode obter PARA SI PRÓPRIO um procedimento médico seguro/legal ou não. 
É anti-escolha e egoísta porque acredita que as mulheres não devem ter total controle sobre seus próprios corpos.

O aborto ser criminalizado NÃO impede que a prática aconteça. Segundo a Organização Mundial da Saúde, de acordo com um informe no site da ONU Brasil, cerca de 22 milhões de abortos inseguros/clandestinos ocorrem todo ano no mundo, e, ainda, estima-se que 47 mil mulheres morram anualmente de complicações devido a prática clandestina ser sobretudo insegura. 

Muito se fala no Brasil atualmente na adoção da pena de morte. Ora, ela já existe, há muito tempo... para quem é negro, para quem é da favela, para quem é mulher, negra, da favela. A consequência imediata da criminalização do aborto é a pena de morte pra mulher sem recursos financeiros, pois a sociedade de massa que se auto-intitula ''pró-vida'', com toda sua hipocrisia e moralismo, não impede as mulheres ricas de abortarem com segurança. 


Lizandra Souza.


Tem como ser feminista e ser contra a LEGALIZAÇÃO do aborto?



PRA MIM, militante feminista, NÃO tem. 
É questão de lógica e sororidade! 

Você pode ser feminista e ser contra o ato do aborto no sentido de que você, independente da sua situação, não faria um. Até aí isso é problema seu, somente seu. Agora, ser feminista e querer impor suas convicções religiosas e/ou filosóficas na vida de outra mulher, limitando suas liberdades fundamentais/individuais sobre o próprio corpo, o mesmo que o patriarcado já faz, NÃO, pois é contraditório.

Feminista, de forma mais genérica possível, é a pessoa que luta a favor da EQUIDADE social, política e econômica entre os gêneros. Isso quer dizer que, quem é feminista, quer que homens e mulheres, mulheres e mulheres e homens e homens, além de pessoas não binárias, sejam tratadas socialmente de forma equânime, simétrica. A equidade (igualdade política, justiça e liberdade) não deve ser apenas entre mulheres e homens, mas entre mulheres e mulheres (e homens e homens), pois há especificidade entre as mulheres.

Sobre tais especificidades, no caso da legalização do aborto, mulheres ricas abortam, têm dinheiro pra sair do país, para comprar ''remédios'', para garantir que a gravidez seja interrompida sem consequência de morrer por isso. Mulheres pobres morrem. Em açougues, clínicas clandestinas. A massa das mulheres que conseguem abortos bem-sucedidos é constituída de mulheres brancas. A massa das mulheres pobres que morem em consequência de abortos clandestinos é constituída de mulheres NEGRAS, periféricas. ESSA É A REALIDADE.

O aborto ser criminalizado NÃO impede que a prática aconteça. A consequência imediata é a pena de morte para a mulher sem recursos financeiros, pois os ''pró-vidas'', com toda sua hipocrisia e moralismo, não impedem as mulheres ricas de abortarem... é fato! 

Mas eles, os "pró-vidas", prezam pela vida humana... né? Vida humana? O que é essa forma de vida? Temos vários conceitos, desde o religioso, filosófico até o biológico, social. No sentido filosófico-religioso, um zigoto, amontoado de células, pode ser considerado uma vida. No sentido biológico, uma vida humana em potencial, em desenvolvimento, mas um organismo não-senciente, não individualizado. 

Um organismo não individualizado, que depende de outro organismo autônomo para se desenvolver NÃO deve ter mais importância do que um ser humano que já vive. O problema dos pró-vidas, pró-nascimento forçado, anti-escolhas, não é salvar FUTUROS bebês, fetos sem sistema nervoso central - SNC (se você tiver morte cerebral, você tem perda da função do seu SNC, logo biologicamente você, ser humano, não está mais vivo - só lhe restará alguns sinais vitais que logo desaparecerão-, por que então um organismo sem SNC é considerado com a mesma vida que uma pessoa já nascida?), o que esses carrascos de mulheres querem é PUNIR a mulher, OBRIGÁ-LA a ter um filho indesejado, para que ela que não queria ser mãe, seja, independente se a criança terá ou não amparo familiar, financeiro, emocional etc. 

Aos choradores de anticoncepcionais, vocês não me enganam nem me comovem, deixem de ser burros, sugerir anticoncepcional NÃO resolve problema de quem JÁ ESTÁ grávida e não quer mais estar, sugiram camisinhas pra quem não está grávida, parem de censurar as minas que carregam camisinhas nas bolsas, que vão pegar em postos de saúde etc. É um começo. 

Não tem como ser feminista e ignorar as milhares de mulheres que todo ano são mortas, mutiladas, carbonizadas em açougues porque seu moralismo te impede de enxergar a realidade SOCIAL.

Legalização do aborto é sobre saúde pública e direitos reprodutivos da mulher, não é sobre opinião pessoal de quem não faria um aborto, lembrem-se disso quando forem opinar sobre!
Ninguém quer obrigar mulheres a abortarem, o que defende-se é o direito da autonomia da mulher sobre o próprio corpo, sobre decidir se quer e está ou não preparada para ser mãe. Antes que comece o choro "e o corpo do bebê?", um ovo não é um pinto, um monte de algodão não é um tecido, um caroço de laranja não é uma laranjeira, um zigoto não é um bebê/criança. Uma vida humana em potencial não é o mesmo que uma vida humana! Se é pela vida, que seja pela de quem já vive.


Um última consideração: por que em discussão sobre aborto, a reaçada sempre manda as minas fecharem as pernas ao invés de sugerirem que os machos é que deveriam ter usado camisinha no pintinho? Que eu saiba, a responsabilidade é de ambos, mas o ato de pôr o preservativo deve ser, normalmente, de quem tem pinto né não hue? Sugerir que a mulher não faça sexo não é argumento que deslegitime a necessidade da legalização do aborto. Sugerir contraceptivos também não, afinal do que adianta sugerir anticoncepcional pra quem JÁ ESTÁ grávida e desejaria não estar? 

Ah é, entendi, é porque na verdade a reaçada queria dizer ''foda-se sua vagabunda, estou cagando pro fato de você não querer esse filho e pro fato de que caso você decida ir a um açougue, lá vão te mutilar e talvez você morra... só quero ser moralista e esfregar na sua cara que sei da existência de anticoncepcionais... e essa porra de zigoto que UM DIA vai se desenvolver e virar um bebê deve se foder com você, afinal estou me lixando pras condições em que essa FUTURA criança nascerá e será criada''.

Pró-vidas né?

Lizandra Souza.

Mamilos femininos e censura patriarcal: uma questão de gênero

Mulheres criam biquíni com estampa de mamilos, como forma de protesto

Não pretendo, com esse post, incentivar nem obrigar as mulheres a saírem por aí mostrando os mamilos como sinônimo de liberdade sexual/corporal, tão pouco aconselhá-las a deixarem de usar sutiã, pretendo, contudo, levantar questionamentos e reflexões sobre a censura dos mamilos polêmicos vulgo femininos e desnaturalizar alguns dos discursos que a legitimam.   


Por que somente na mulher os mamilos são vistos como ''órgãos sexuais" e, por isso, devem ser censurados, enquanto os machos caminham livremente na rua com seus mamilos expostos? É porque os homens não conseguiriam se controlar caso fosse dado o mesmo direito ao uso do próprio corpo às mulheres? Ou seja, é porque o homem não consegue segurar o pau dentro da calça e respeitar o corpo alheio? É porque os mamilos das mulheres passam mensagens sexuais quando eriçam? Ora, mas um mamilo pode eriçar por qualquer coisa, involuntariamente, por contato com determinados tecidos, por fricção com a roupa, por a mulher estar num ambiente frio, por um espirro... E os mamilos dos machos, não eriçam? Ah, mas ''homem é homem''?... isso não é argumento nem aqui nem na China. Não passa de um discurso machista para naturalizar a disparidade de gênero no que se refere ao tratamento entre homens e mulheres na sociedade.

Mamilos/seios não são órgãos sexuais. Órgão sexual é a vagina, em especial o clitóris, assim como o pênis. Até o cu, em linguagem popular, pode ser considerado órgão sexual já que é usado em relações sexuais, sobretudo as homoafetivas. E não nos esqueçamos que anatomia como toda ciência tem uma história, se inscreve no tempo e no espaço e não está isenta de ideologias, estas podendo ou não sustentar relações de poder. Basta lembrarmo-nos que anatomia (leitura anatômica dos sujeitos) já foi usada para legitimar relações assimétricas de poder entre homens e mulheres desde séculos passados, através do culto ao falo. 

A dicotomia entre mamilo feminino x mamilo masculino e como a sociedade lê e encara os peitos na mulher e os peitos no homem diz muito sobre hipersexualização e objetificação feminina e a cultura sexista, pois se constituem amplamente de censura patriarcal que visa regular, monitorar e coagir a expressão do corpo feminino voltado a vontade e liberdade da mulher. 

Maria Bethânia: fotos censuradas no Instagram

Os seios da mulher não são ofensivos nas propagandas de cerveja ou quando são usados para vender carros, roupas, cosméticos etc. Os mamilos femininos que aparecem em todo episódio de Game of Thrones também não chocam. A publicidade usa e abusa do corpo da mulher, e uma das partes do corpo mais hiperssexualizada são os seios. As pessoas compram isso e não se questionam sobre tal, é naturalizado. Agora, imagine uma mulher amamentando seu filho em público... que vulgar, falta de pudor, não podia fazer isso num banheiro? Isso mesmo, sugerem que a mãe dê de mamar (alimente seu bebê) em um banheiro, cheio de bactérias e tals, porque aqueles peitos ali não estão sendo usados para agradar machos, apenas isso. 

Cena de "Game of Thrones" com Daenerys Targaryen (Emilia Clarke)

O corpo da mulher torna-se ofensivo quando não é usado ao bel prazer masculino, outro exemplo disso está relacionado com o fato das mulheres serem condicionadas a usarem sutiãs desde cedo. Muitas vezes a menina ainda nem tem vestígio de seio e já tem seu primeiro contato com o próprio sutiã. Sobre o uso desse e o discurso popular de necessidade para manter os seios firmes, para a saúde da mama etc... ainda não se sabe, científica e fidedignamente se o uso do sutiã é ou não essencial para manter os seios mais firmes. Contudo, uma pesquisa recente, amparada num estudo de 15 anos de Denis Rouillon, médico e professor de medicina esportiva da Universidade Franche-Comte, na França, aponta que não usar sutiã é uma boa escolha, pelo menos para algumas mulheres, pois foi constatado (entre as mulheres que participaram do estudo) que o mamilo volta a subir a uma média de sete milímetros por ano quando não se usa sutiã, você pode ler a matéria no site da BBC Brasil.

Mas o que de fato quero apontar com isso? Nos lembremos do carnaval. Possivelmente uma das primeiras imagens que aparecem na nossa imaginação é a de uma mulher seminua, provavelmente mostrando os seios livremente com muita purpurina. O corpo feminino nu é glamourizado e hiperssexualizado sobretudo em tempos de carnaval, sabem por quê? Porque isso gera lucro, porque vende, porque agrada a um determinado público consumidor: homens heterossexuais (e os que se relacionam com mulheres, como bissexuais, pansexuais etc). 


Andressa Urach

No carnaval a mulher pode optar por não usar sutiã normalmente, agora se no dia-a-dia, pós-carnaval, ela optar não usar essa peça é uma deusa-nos-acuda! Fim dos tempos! Apocalipse! Afinal, ela optou não usar porque quis, e o querer da mulher não tem vez numa sociedade que hiperssexualiza e objetifica seu corpo como objeto de compra e venda. 

Tudo isso que problematizei até agora não invalida que durante o sexo você, mulher, não possa sentir prazer a partir da exploração dos mamilos/seios, mas isso não é requisito para ter tornado os seios na mulher algo tão censurável e estritamente sexual, sendo que é uma ideia que prejudica mulheres que amamentam por serem censuradas se isso for feito em público assim como as mulheres que se dão o direito de não usarem sutiã e não camuflarem os próprios seios, como já mencionei.

Existem pessoas que sentem ''prazer sexual'' com exploração nas orelhas, isso as tornam órgãos sexuais? Temos que censurar nossas orelhas? Tem gente com fetiche em barriga, isso a torna um órgão sexual? E quem adora um pé, está vendo o pé como órgão sexual ou apenas objeto de desejo? Se é para sexualizar algo, que seja o clitóris, este sim é um órgão exclusivamente sexual. E, ao contrário do que a mentalidade popular pensa, na mulher (cisgênero) o equivalente ao pênis no homem é o clitóris, não a vagina. 


Clitóris em escultura :A escultura Adamas, de Sophie Wallace


Lizandra Souza.

Hierarquia de opressão?


Não acredito em hierarquia de opressão, isto é, que há uma opressão pior que a outra, do contrário eu teria que acreditar que a opressão x deve ser mais combatida que a y, o que é incoerente levando em conta o diálogo entre as mais formas de dominação-exploração existentes. 

Acredito que as opressões podem e atingem os sujeitos de forma a oprimir mais uns que a outros, mas isso quando elas estão inter-relacionadas diretamente no modo como os sujeitos são lidos socialmente e integram suas vivências a sociedade. Em outras palavras, racismo não é pior que machismo, o que é pior é você sofrer não só racismo, mas machismo também. E pior ainda se você for lésbica, pois sofrerá lesbofobia. E se for gorda, gordofobia. E pobre? Elitismo! E se tiver deficiência? Capacitismo! Se for nordestina? Xenofobia. E se... 

O recorte é necessário para se reconhecer privilégios em relação aos outros. Reconhecer privilégios é uma forma de empatia. Ser privilegiado em uma determinada opressão não quer dizer que você não sofra com outras e que outras pessoas não tenham privilégios em relação a você. 

Machismo, misoginia, homofobia, lesbofobia, bifobia, acefobia, panfobia, transfobia, racismo, capacitismo, elitismo, gordofobia... são opressões e em geral nunca atingem isoladamente os seres humanos, sabem por quê? Porque somos seres plurais. E é reconhecendo essa pluralidade que a gente melhor analisa e subverte o que nos afeta negativamente.


Lizandra Souza.

Juízo



para ela a culpa
para ele a desculpa
ela, a puta, que sabia o que fazia,
não tem explicação
nada de comoção... 
quem não a avacalharia? 
ele, o coitado, não sabia o que fazia,
tem explicação
veja sua situação... 
quem não se comoveria? 
para ela a condenação
para ele o perdão.

Lizandra Souza.

Nova velha ordem



Alguns temem a morte. Não ter vivido plenamente. Não ter feito as melhores escolhas. Não ter escolhido. Não ter feito o que se queria fazer. Não realizar sonhos. Não ter sonhado o bastante. Ter sonhado demais e não vivido o suficiente, o planejado... Planos? São tantos. As vezes, tontos. Depende mesmo do ponto de vista de quem vê. Alguns não veem um palmo a frente do nariz. Problema? Quem irá dizer! Solidão, tem quem a tema. Ainda mais quando há a confusão entre solidão e estar sozinho. Tem também quem tema o desamor. Nunca amar e ser amado. Não ter vivido aquela história romantizada nos contos. No final de novela. Tem os que temem as mudanças climáticas, as instabilidades econômicas e políticas, o programa nuclear do Irã e possíveis ciberataques do país. Tem também quem sofra de temores "bobos", entre eles o de voar de avião, o de está em lugares altos, o do escuro, das baratas... Tem quem tema a fome. Tem quem tema comer demais. Tem gente que teme gente. Da gente? Só se for pra mudar! Mudança, muitos a temem. Mudar é esperar um novo porvir. Nem todos estão adaptados ao novo futuro imediato. Tem quem tema a partida. E também quem tema a chegada. A ida, a vinda, a volta. A vida. 

Teve o tempo em que temi tudo isso, mas hoje eu temo o Temer.

Lizandra Souza.