Diários de Uma Feminista. Tecnologia do Blogger.

10 comportamentos que tiram o valor de um homem



Hoje em dia os homens (cis, héteros) andam muito desvalorizados. Isso faz com que muitos sofram amargamente nas suas vidas, sobretudo na vida amorosa.

Outro dia eu estava vendo uns vídeos de forró, funk, sertanejo e fiquei chocada com o comportamento vulgar dos rapazes. Agora deram pra ralar até o chão como um bando de putinhos a busca de serem comidos... e a gente, mulherada, já sabe que se o boy rala o pinto no chão é porque ele é um homem rodado, um mero bilau passado.



Antigamente, no tempo de nossas avós, o homem era valorizado pelo seu pudor virginal, não pela sua aparência. Homens eram um prêmio a ser alcançado pelas mulheres, eles tinham que ser conquistados, ganhados. Hoje em dia, muitos machos estão disponíveis para qualquer mulher num estalar de dedos. Escolhe-se um macho diferente a cada esquina. E a mídia ainda insiste em dizer que homem pode dar pra quantas ele quiser, fazendo os machos assimilarem uma ideia errada e vulgar que os levarão a serem infelizes porque nunca encontrarão uma mulher que os valorizem e os assumam, pois na verdade só as cafajestas os usarão em uma noite e nada mais.

Diante desse quadro, o que um homem decente não deve fazer? Confira abaixo 10 dicas.

1. Não se vista de maneira insinuante, seja sempre composto e elegante; 

2. Não mostre os peitos, não use shorts demasiadamente curtos ou caindo no meio da bunda, de maneira provocante demais, pois dá para se vestir sexy sem ser vulgar; 

3. Não viva em casa de mulheres, mesmo que estas sejam amigas suas, mas principalmente se elas morarem sozinhas, você ficará mal falado e nenhuma das mulheres respeitará você; 

4. Não seja visto rodeado de mulheres. Muitos homis perdem/ram grandes partidas por isso. A mina vê o bói, se interessa, mas quando vê que ele é rodeado de mulheres, cai fora porque vê-lo como sendo sem valor; 

5. Não fale nomes vulgares, palavrões, coisas de baixo calão ou palavras torpes que não condizem com o que um homi de valor deve falar; 

6. Busque ser discreto. Você não precisa ser espalhafatoso, gritante, que gosta de chamar a atenção para si, SE VALORIZE; 

7. Não saia por aí ficando com qualquer uma. Aliás, nem "fique". Corte isso da sua vida. Homis que se valorizam não aceitam serem usados por uma noite, seja para sexo ou para qualquer coisa que seja. Se dê o respeito, homi! 

8. Quando namorar, avalie bem com quem você se relaciona. Se a mulher fizer algo de errado a culpa sempre será sua. Mulheres são assim mesmo, é da nossa natureza... 

9. Não se entregue logo de cara. Acredite que a maioria das mulheres contam para as migas detalhes sórdidos do que fazem com você na cama. Seu nome, homi, fica sujo na boca de várias mulheres e você nem sabe, pois elas não vão te dizer, mas quando você passar por elas, os pensamentos serão os piores; 

10. Não viva em festas, baladas, bebedeiras e promiscuidade. Ou melhor: não viva.


*Esse texto é uma resposta sarcástica a outro, de teor machista, que circula na internet. A intenção aqui não é reprimir os homens, mas mostrar como esse discurso é ridículo e como somente parece ridículo e absurdo quando é direcionado a figura masculina.

Lizandra Souza.

Somos putas?



Somos putas quando transamos
e somos putas também quando não transamos.
Somos putas quando nos vestimos
de forma considerada sensual/vulgar
e dizemos não a um homem.
Somos putas quando nos vestimos
de forma "contida"
e dizemos não a um homem.
Somos putas quando desrespeitam nosso não
e nos abusam.
Somos putas e culpadas.
Somos putas de batom vermelho.
Somos putas de salto.
Somos putas bebendo.
Somos putas na balada.
Somos putas na igreja
por ''nos fazermos de santinhas''.
Somos putas se transamos quando quisermos,
e com quem nós quisermos.
Somos putas quando não transamos
(''as putas puritanas" dizem os machos).
Somos putas quando dizemos não
aos nossos chefes/empregadores.
Somos putas quando dizemos sim
a nossos chefes/empregadores.
 Somos putas quando engravidamos
antes de casarmos.
Somos putas se o pai da criança
não assume a paternidade.
Somos putas se abortamos.
Somos putas se tivermos o bebê.
Somos putas toda vez que escolhemos ser
o que somos.

Somos putas também
todas as vezes
que nossas escolhas
ferem o patriarcado.

Sobre ser essa puta: amo/sou.



Lizandra Souza.

Sobre feminismo, divergência teórica e briga de vertentes...



Feminismo, de modo genérico, pode ser definido como um movimento que busca a equidade social, política e econômica entre os gêneros. Acontece que além dessa definição geral, existem pautas  ou bandeiras específicas levantadas pelas mais variadas vertentes/núcleos do movimento. E muitas vezes a gente que tem acesso a espaços de militância se depara com a expressão "briga de vertente". Pois bem, o que é isso? É simplesmente o fato de existirem divergências teóricas simples entre cada núcleo feminista ou pode haver algo mais?

Briga de vertente no feminismo nada mais é que você se posicionar politicamente pra defender a sua vertente. Contudo, isso não significa que o que você esteja fazendo seja ISENTO de sustentar mecanismos de opressão. O que muita feminista não sabe ou admite. 

Feminismo é política. 
Não dá pra haver neutralidade, você tem que se posicionar. 

Cada vertente do feminismo é pautada por ideologias políticas.

Feminismo intersec tem uma forma de lutar baseada em determinadas ideologias. No marxista, negro, liberal, radical, anarquista, indígena... acontece o mesmo. Algumas vertentes se chocam radicalmente porque possuem posições ideológicas totalmente opostas, como ocorre entre a marxista e a liberal ou entre a interseccional e a radical. 

Se você é feminista intersec de verdade é óbvio que você não vai tolerar mulher cisgênero chamando mulher transgênero de ''macho de saia''. Pois isso é transfobia, logo uma opressão. E no intersec todas as opressões devem ser combatidas. Se você é feminista liberal você vai deslegitimar as feministas intersecs que prezam por protagonismo nas pautas. Afinal, pra você pouco importa visibilidade da pessoa oprimida. Todo mundo deve ter a mesma voz no movimento. Se você é feminista marxista ou anarquista você não vai concordar com as pautas liberalóides do libfem por este se alinhar em muito com políticas de direita. Se você é feminista radical você não vai aceitar a pauta do libfem que permite homem cisgênero protagonizando feminismo... Tudo isso é divergência teórica. Mas lembrem-se: nenhuma teoria está isenta de ideologia e nenhuma ideologia está isenta de opressão.

Quando a gente defende politicamente a nossa vertente, a gente defende também uma ideologia. Não dá pra unificar todas as vertentes feministas se elas divergem radicalmente em suas posturas. Existem algumas que dão pra se alinharem por dialogarem, tipo intersec, negra, indígena, marxista e anarquista. Mas outras não. Não tem como contra-hegemonizar com a estrutura transfóbica da nossa sociedade legitimando a teoria identitária original do radfem, por exemplo. Ou lutar contra o capitalismo seguindo a lógica liberal. 

Eu brigo por vertente sim. Eu me posiciono sim. Pois vertente nenhuma é perfeita, muito menos é isenta de sustentar formas de dominação-exploração.

Existem feministas racistas. 
Existem feministas LGBTfóbicas. 
Existem feministas elitistas. 
Existem feministas gordofóbicas. 
Existem feministas capacitistas. 

E isso acontece porque existem feministas privilegiadas em um ou mais sistemas de dominação-exploração. Antes de sermos feministas, somos mulheres com posições sociais diversificadas (classe, etnia, sexualidade, condição de gênero...). E quando se está do lado privilegiado é necessária muita empatia para tirar o véu dos privilégios da cara. 

E pasmem: elas vão continuar existindo enquanto a gente não criar noção do ridículo e parar de passar pano pra mulher opressora só porque ela é feminista.


Lizandra Souza.

Feminismo radical é a vertente mais odiada do feminismo?



Sou feminista radical.

Pertenço a vertente mais odiada do movimento mais odiado.

Vi a frase acima algumas vezes nas últimas semanas no meu perfil do facebook. Minha reação não podia ser outra.


Feminismo radical não é a vertente mais odiada do movimento mais odiado. 

PAREM DE PASSAR VERGONHA!!!

Pra ser a vertente mais odiada precisaria o radfem ser composto pelas pessoas mais odiadas institucionalmente e o que o feminismo radical atual (hegemonia) não é feito é dos grupos minoritários políticos em comparação a outras vertentes protagonizadas por mulheres pobres, mulheres negras, mulheres LGBT+. 

Feminismo radical pode ser a vertente mais rejeitada e criticada pelas outras vertentes que, com exceção da liberal, dialogam em muito, há divergências, obviamente, mas desde a interseccional, passando pela anarquista, negra, indígena, até a marxista... você vê recortes essenciais de gênero, classe, sexualidade e etnia, o que faz com que os sujeitos políticos das vertentes não se deslegitimem enquanto sujeitos políticos em busca de um fim comum: desinstitucionalizar e posteriormente acabar com as mais diversas relações assimétricas de poder já que há um diálogo entre a manutenção das opressões de classe, gênero, sexualidade e etnia. 

E isso (a crítica ao radfem atual) não tem nada a ver com ódio, mas com noção do ridículo que é se basear em uma teoria de abolição de gênero falha, incoerente e propensa a ir a lugar nenhum. 

Por quê?

Não tem como abolir gênero ao mesmo tempo reivindicando uma categoria de gênero. Só teria coerência uma luta pela abolição de gênero se quem se propusesse a isso se reivindicasse como sendo uma pessoa sem gênero, agênero, já que não se identifica com nenhum gênero, e pra isso você não poderia mais dizer "sou mulher", pois você estaria legitimando e sustentando algo que você quer destruir. 

Você poderia dizer "a sociedade me lê como mulher, me socializou como mulher, mas eu não sou, eu não me identifico como mulher". O que acontece é bem diferente nessa luta pra pseudo-abolir gêneros. Tem mulher se reivindicando como mulher porque tem vagina, útero, anatomia determinada pela ciência como feminina. E usando disso pra deslegitimar mulheres que não foram designadas mulheres ao nascer. Ah, lembremo-nos, anatomia tem uma história (bem misógina, por sinal), logo se não é a-histórica, não é inata, não é um fato dado, também deve ser problematizada de acordo com as ideologias dominantes. 

Não tem como abolir o ser-mulher se você a todo instante se designa assim bem como não nega isso. Socialização te impôs isso? Okay, mas você não é um robô e já pode muito bem começar a negar isso: ser mulher. Mas não, você continua se designando como mulher. E cagando regra por aí como é "se sentir mulher", e chorando quando não vê uma mulher "como você". 

Já repararam que as pessoas que não veem a necessidade de as outras pessoas se identificarem com um gênero, nenhuma delas se apresentam como sendo pessoa de nenhum gênero, isto é, nenhuma começa a se reivindicar agênero. 

Quantas rads agêneros vocês conhecem? Quantas negam o ser mulher e se reivindicam enquanto pessoas sem gênero? Ora, se buscam um mundo no qual não exista isso de homem, mulher... porque insistem em se designar mulheres? Dá muito bem pra se designar como "sou uma pessoa que quando nasceu foi designada mulher", tal expressão não legitima a categoria mulher. Agora, pessoas agêneros existem (e não é uma escolha), mas se elas foram designadas homem ao nascer, só pela designação e socialização (a qual envolve fatores não só de gênero designado e leitura, mas de etnia, sexualidade, classe...) logo chove terf (feminista radical trans-excludente) dizendo que é macho querendo silenciar mulher. Ou se uma pessoa agênero foi designada como mulher, mas não é mulher, logo chove terf pra dizer que essa pessoa está confusa, que é uma mulher negando ser mulher por causa da opressão e do queer.

Radfem atual perde mais tempo perseguindo e humilhando mulheres trans e travestis que pautando a favor das mulheres designadas mulheres ao nascer. Vá em blogues, páginas, sites de ativismo radical, em geral grande parte ou mesmo a maioria das discussões vai girar em torno de transexualidade e queer (pseudo-queer), falam mais de transexuais que as pessoas trans e trans aliadas, uma pena fazerem isso de forma desonesta.

Como sempre que rola crítica ao feminismo radical quanto a exclusão de mulheres trans e travestis surge mina para falar que é por causa da socialização díspar, eu vou contar um "segredo" para vocês: 

Socialização das mulheres cisgêneras, isto é, das mulheres designadas mulheres ao nascer, também é díspar. 

Vejamos. 

Mulheres cis brancas e mulheres cis negras (considere mais etnias) têm socializações diferentes. 
Mulheres cis ricas e mulheres cis pobres têm socializações diferentes.
Mulheres cis héteros e mulheres cis não-héteros têm socializações diferentes.
Mulheres cis sem deficiência e mulheres cis com deficiência têm socializações diferentes.
Mulheres cis magras e mulheres cis gordas têm socializações diferentes. 

Todos os condicionamentos e integrações sociais de gênero, classe, etnia, sexualidade etc dialogam entre si a formar os sujeitos sociais e a inseri-los nas relações assimétricas de poder. 

Por um lado, mulheres cis são socializadas, em questões de gênero, de forma repressora só por terem vagina, de acordo com a leitura social que subordina pessoas com vagina. Okay? Okay! 

Por outro lado, mulheres trans têm uma socialização privilegiada igual a dos machos cis, okay? NÃÃÃO! SEM OKAY!
Mulheres trans não têm uma socialização privilegiada igual a dos homens cis em questões de gênero. É absurdo acreditar que uma mulher trans desde criança não sofre com os condicionamentos de gênero opostos a sua identidade, a sua subjetividade, a sua mulheridade. Como NOME, PRONOME, ROUPAS, BRINQUEDOS. Sem falar nas "correções de gênero" ligadas a violência física, emocional, psicológica... que essas mulheres sofrem para se integrarem no gênero o qual lhes foi designado ao nascer. Dessa forma, eu não me refiro a papéis restritivos de gênero, mas a fatores mais ligados a IDENTIDADE SOCIAL.

Deixa eu falar uma coisa pra vocês:

Ambas mulheres importam... TODA MULHER deve ter seu espaço no feminismo, protagonizar suas pautas e apoiar as outras. Você radfem é trans-excludente não por lutar pelo fim da opressão das mulheres que nasceram com vagina, as cis, as designadas mulheres ao nascer, a buceta a4, mas por perseguir, humilhar, deslegitimar mulheres trans e travestis, grupos políticos já massacrados pelas hegemonias sociais.

FALE DE BUCETA.
MILITE PELAS PESSOAS COM BUCETA.
PRECISAMOS!!! 
SÓ NÃO QUEIRA QUE TODO MUNDO SE LIMITE A SER UMA BUCETA AMBULANTE. 
SÓ NÃO LIMITE SUBJETIVIDADE, IDENTIDADE, A GENITAL. SÓ NÃO LIMITE A HUMANIDADE DAS PESSOAS AOS SEUS GENITAIS. 

Negar o que uma pessoa é, é negar sua humanidade. 
Seu direito a legitimação da própria identidade. 

Feminismo negro é o maior exemplo de que se pode pautar por um grupo específico de mulheres sem precisar excluir, deslegitimar ou discriminar outras. Visitem páginas, blogues e perfis de feministas negras, elas, em geral e em MASSA, estão mais preocupadas em pautar pelas mulheres negras que deslegitimar a luta das mulheres brancas. E não me venham com "racismo reverso'' porque sarcasmo usado por uma parte da militância negra com pessoas brancas hipócritas e racistas é diferente de discurso de ódio usado por radfems ao dizer que mulheres trans são doentes vítimas de pedofilia que ficaram com transtorno de gênero ou que são, ainda, estupradores de saia, que homens trans são lésbicas confusas pela indústria queer, que bissexuais não existem, que o feminismo deve acolher apenas mulheres nascidas com vagina ou socializadas como mulheres, entre outros absurdos.

Lizandra Souza.

A escrita como subversão e denúncia social em Quarto de despejo de Carolina de Jesus

"A favela é o quarto de despejo de uma cidade. Nós, os pobres, somos os trastes velhos." - Carolina Maria de Jesus

Quarto de Despejo: diário de uma favelada, é um livro em forma de diário, escrito por Carolina Maria de Jesus (1915-1977), mulher negra, pobre, sem muita escolaridade, catadora de papel e lixo, solteira e mãe de três filhos, à época da escrita, moradora da antiga favela do Canindé, em São Paulo. Em seu diário, que se inicia no ano de 1955 e termina no ano de 1960, Carolina registrou seu cotidiano pobre e humilde, assim como o das pessoas a sua volta, as necessidades, carências e desmazelos que sofriam, advindos do descaso do poder público, os conflitos entre os moradores da favela, a miséria que os cercavam, além de apontar para fatos importantes da vida sócio-política do Brasil daquela época, como a negligência política com a população menos favorecida socioeconomicamente. 

Não há como desvincular a obra com a vida de Carolina, pois ambas se relacionam devido ao próprio formato do gênero discursivo, o diário, escolhido pela autora para relatar suas vivências, os acontecimentos a sua volta e seus sentimentos diante de seu contexto social precário, desigual e injusto. 

Nascida em Sacramento, comunidade rural situada em Minas Gerais, Carolina Maria de Jesus mudou-se para a capital paulista em 1947, período histórico em que surgiram as primeiras favelas na cidade. A despeito da pouca escolaridade, tendo cursado apenas os anos iniciais do primário, ela reunia em sua casa mais de 20 cadernos com relatos sobre a vida na favela, um dos quais deu origem ao livro Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, publicado em 1960. Após o lançamento, o livro logo ganhou três edições seguidas, tendo um total de 100 mil exemplares vendidos, sendo traduzido para 13 idiomas e vendido em mais de 40 países. 

O sucesso do livro deu a escritora a oportunidade de sair da favela e ir morar numa casa de tijolos em um subúrbio, porém as aquisições materiais de Carolina não foram muito distantes disso, aquela época escritoras mulheres já eram facilmente esquecidas e mal remuneradas, acrescentando-se a isso o fato de a escritora do Canindé ser negra (sendo, aliás, considerada uma das nossas primeiras e importantes escritoras negras brasileiras), o sistema de silenciamento feminino torna-se ainda mais cruel. Dessa forma, Carolina morreu ainda sendo pobre e, quase, esquecida, apesar de seu livro ter sido vastamente lido na Europa ocidental capitalista e nos EUA como em países do chamado bloco socialista/comunista, revelando que independente dos sistemas políticos, a obra da autora conseguiu promover comoção e denúncia da realidade cruel das favelas e da desigualdade social decorrentes da opressão de classe e raça. 

A história da publicação do livro-diário de Carolina, assim como a descoberta da escritora, por si sós já dão uma história interessante e peculiar. Quase desiludida com editoras nacionais e internacionais, após ter alguns manuscritos recusados para publicação, Carolina viu a situação de recusa de sua obra acabar após conhecer o jornalista Audálio Dantas, em abril de 1958, que encarregado de fazer uma matéria sobre uma favela que se expandia na beira do rio Tietê, no bairro do Canindé, acabou conhecendo Carolina e logo que soube de seus escritos viu nela uma porta-voz legítima da vida em favela, alguém que tinha uma perspectiva de dentro, daquele meio, que podia mostrar com maior veracidade e riqueza de percepções o cotidianos dos favelados. Assim, ele desistiu de escrever a reportagem inicial e se encarregou de ajudar aquela mulher subversiva, que não se submetia ao sistema de opressão de gênero, classe e étnico que desfavoreciam-na socialmente, mas que não subordinaram suas ideias e sonhos, a publicar sua obra, afinal, em um meio onde o analfabetismo predominava, saber ler e escrever poderiam abrir portas e Carolina sabia disso, tanto que com a publicação ela desejava ter casa e comida, isto é, condições básicas a sua sobrevivência e a de seus filhos. 

Ao dizer que escreve “a miséria e a vida infausta dos favelados”, Carolina sintetiza com força de expressão a denúncia que ela faz a respeito das condições de vida das pessoas que moram na favela, pois na narrativa ela não fala somente sobre si, mas sobre as pessoas ao seu redor, aliás, no próprio diário ela menciona que algumas vezes “ameaçou” os vizinhos e disse que os mencionaria em sua obra, para revelar determinadas atitudes entre eles que não são, a perspectiva dela, aprováveis. Dessa forma, os fatos são contados a partir da opinião da autora, que protagoniza, por ser a voz narrativa que descreve a si e o mundo a sua volta, em geral, os episódios contados. 

A fome é uma figura constante na obra. Chega a ser uma personagem simbólica por permear a todo momento o cotidiano das personagens. Carolina, para matar a fome dos filhos e dela própria, trabalhou catando o lixo da cidade, como latas, papéis, papelões, ferros velhos, sucatas, enfim, materiais que podiam ser trocados por comida ou dinheiro (para ser gastado em comida). Muitas vezes, até mesmo comida do lixo a personagem era obrigada (obviamente, por um sistema social de classe e raça excludentes) a pegar para comer com os filhos. Seus filhos (dois meninos e uma menina), ainda crianças, geralmente, ficavam em casa sozinhos (com exceção da filha Vera Eunice, a mais nova, que as vezes Carolina se via obrigada a levar consigo) aguardando a mãe chegar com algo para comer. 

Ao contrário do que algumas pessoas que não tenham lido o livro possam imaginar, Carolina não casou não porque não haviam candidatos, mas por escolha própria. Ela via no casamento uma prisão na qual a mulher sofre violência doméstica e não tem quem a ampare, pois o matrimônio entre um homem e uma mulher pobres aumenta a exploração desta, que passa a viver não só para sustentar a si e aos filhos, mas também a ter que aguentar um marido que, naquele contexto, era sinônimo de homem agressivo, rude, que batia e humilhava sua esposa na menor oportunidade. Mulheres saindo nuas de seus barracos e pedindo socorro, pois seus maridos as queriam matar, são alguns episódios de violência doméstica, de violência de gênero, mencionados pela autora em seus relatos. Apesar de não querer casamento naquelas condições, Carolina mencionou, durante seus relatos no diário, dois homens, os quais passam por sua vida mantendo com ela alguma relação afetiva, um modesto trabalhador que desejava casar com ela, o Manoel, e o outro, um cigano bonito e charmoso, o Raimundo. 

A partir de sua rotina de catadora de lixo, de uma mulher em que a própria existência já era sinônimo de resistência, Carolina nos mostra sua visão sobre a condição humana, sobre os pequenos aspectos que lhe compõem e dão materialidade e, ainda (ou por isso mesmo), as relações sociais desiguais, nas quais uns têm tanto, outros quase nada. 

Apesar de linguagem da escritora ser, em geral, simples e coloquial, fugindo das convenções gramaticais e algumas vezes da ortografia oficial, há também algumas vezes o registro de algumas palavras mais rebuscadas, o que ao invés de prejudicar a obra ou desmerecê-la, como podem pensar os patrulheiros gramaticais, confere-lhe um caráter poético e de maior realismo, fazendo de Carolina uma escritora da literatura-verdade ou como Clarice Lispector falou, certa vez, sobre a escritora do Canindé, que ela escrevia a verdade ou escrevia de verdade.

Diante desse quadro, através do diário de Carolina Maria de Jesus, nós podemos imaginar a triste realidade das favelas brasileiras, dos "quartos de despejos" da época assim como o cenário social e político de descaso para com os menos favorecidos, o qual ainda hoje reflete na nossa sociedade contemporânea, marcada pelos sistemas de dominação-exploração das mulheres, dos negros e pobres, minorias políticas que podem se ver representadas em Quarto de Despejo. A voz de Carolina é também a voz do povo brasileiro de ontem... E de hoje.

REFERÊNCIAS JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: Diário de uma favelada. 7ª ed. São Paulo: Editora Ática, 1998. 


Lizandra Souza.


Publicado originalmente em:
http://loucurasedevaneiosbyliza.blogspot.com.br/2016/06/resenha-do-livro-quarto-de-despejo.html