Diários de Uma Feminista. Tecnologia do Blogger.

Feminismo, uma questão de igualdade ou de equidade?



Feminismo a meu ver não é sobre ''igualdade de sexo'', ''igualdade entre os gêneros'', ''igualdade entre homens e mulheres''. Isso nunca vai existir. Mulheres e mulheres não são iguais, muito menos mulheres e homens. Feminismo não existe para pregar que mulheres sejam iguais aos homens. Eu não quero me igualar a um gênero opressor. Eu não quero que ocorram 5 espancamentos de homens, por mulheres, no Brasil, a cada 2 minutos. Eu não quero que 1 homem seja estuprado a cada 12 minutos no Brasil. Eu não quero que a cada 90 minutos 1 homem morra por questão de gênero. Eu não quero que cerca de 180 homens, por dia, relatem agressões sofridas em um sistema de atendimento de denúncia só para homens. Eu não quero que 43 mil homens sejam assassinados, 43% em casa, em 10 anos, por mulheres só por serem homens. Eu não quero que homens ganhem menos que mulheres só por serem homens, mesmo havendo na lei que não é permitida discriminação por gênero. Eu não quero que os homens passem por tudo o que as mulheres passam somente por serem mulheres. Repito, eu não quero me igualar a um gênero opressor.

''Ah, mas a "igualdade de gênero" não é sobre homens e mulheres serem iguais, é sobre a igualdade de direitos e deveres'', disse a mulher que tem por lei os mesmos direitos que os homens, mas que na prática continua ganhando menos que eles exercendo a mesma profissão, com mesma carga horária de trabalho ou, ainda, disse a feminista que não quer lutar para ser obrigada a se alistar obrigatoriamente no exército, ou, pelo menos, lutar pelo fim da obrigatoriedade disso para os machos...  Afinal é exatamente isso o que a igualdade de deveres prega, não? Percebem como esse discurso de igualdade é raso e gera argumentos inócuos como esse do alistamento mimimilitar?

É por causa dessa ideia superficial de igualdade que tem gente que acha que feminista é a mulher que quer ser homem. Quem, amigas, com plena razão e consciência vai militar para ser igual a macho? Essa expressão "igualdade de gênero'' é problemática demais, pois ela em geral não é concebida como igualdade política, ela não gera só esses "chorôrôs" que nós feministas temos que aturar diariamente, mas também problemáticas que implicam no apagamento de questões de sexualidade, etnia e classe social dentro da militância feminista. Mulheres negras em oposição as mulheres brancas, mulheres lésbicas, bissexuais, assexuais ou pansexuais em oposição as mulheres héteros, mulheres transexuais em oposição as mulheres cisgêneros, mulheres pobres em oposição as mulheres ricas/classe média alta, ocupam relações de poder diferenciadas nos sistemas de dominação-exploração, somente pelas especificidades de etnia, sexualidade e classe. Dessa forma, o feminismo não visa tratar nem as mulheres de forma igual, pois não existe uma igualdade de gênero nem entre as mulheres, pois existem especificidades que precisam ser tratadas de forma diferenciada justamente para que haja justiça social, quem dirá então igualar utopicamente homens e mulheres.

Eu, enquanto feminista, quero EQUIDADE social, política e econômica entre todos os gêneros, isto é, entre mulheres, homens, não-binários. Equidade vai além dessa igualdade usada nesse discurso raso e utópico de que feminismo é "igualdade de gênero", discurso que só serve para inserir macho no movimento, para se preocupar com sofrimento de macho, com a ''opressão do macho pelas misândricas nesse mundo pós-moderno'' ou, ainda, para camuflar esse liberalismo econômico que no fim das contas só iguala homens e mulheres brancos de classe social privilegiada. A equidade social tem como pré-requisito a isonomia, a justiça e a assimetria social, superando, dessa forma, a ideia de igualdade, pois ela visa tratar igual os socialmente iguais, mas tratar de forma diferenciada positivamente os que assim necessitam, por estarem em desvantagem diante de determinado grupo social. Por exemplo, eu tenho 10 laranjas e pretendo distribui-las entre 5 pessoas. Dessas 5 pessoas, duas já têm 2 laranjas cada, enquanto o restante possui 0 laranjas. Igualdade é eu dar 2 laranjas a cada uma das 5 pessoas, equidade é eu dar duas laranjas apenas para as três pessoas que não possuem nenhuma, pois se eu der duas laranjas para todas as 5 pessoas, ignorando as 2 que que já tinham 2 laranjas, eu estaria agravando as desigualdades entre elas, ou seja, a própria "igualdade" estaria funcionando como um mecanismo de tensões entre essas pessoas. Por isso eu escolho a equidade! E as 4 laranjas que sobraram? Eu as chupo, ué... Não, eu as guardo para distribuir para mais pessoas que não tenham 2 laranjas. Eu não tenho nenhuma, logo ficarei com 2 e guardarei as outras 2 para alguma leitora que não tenha e goste de suco de laranja após uma boa misandriada diurna.

Feminismo não é sobre igualdade de gênero, já passou da hora de tentarmos reverter essa frase de efeito rasa, feminismo é sobre empoderamento feminino, é sobre os direitos reprodutivos da mulher, é sobre o fim do sistema de dominação-exploração da mulher pelo homem/cis, é sobre equidade social, política e econômica entre os gêneros. É sobre justiça social. É sobre muitas coisas, até sobre laranjas, menos sobre o desejo de as mulheres serem iguais aos machos.


Uma última consideração, como nem todo mundo conhece o termo equidade, pode-se até falar em “igualdade” inicialmente quando se for introduzir o tema feminismo para alguém leigo no assunto, contudo é importante frisar a expressão “igualdade política e social”, para posteriormente desenvolver a ideia até se chegar na equidade. 

Lizandra Souza.

6 comentários:

  1. Amei, texto perfeito! Penso exatamente a mesma coisa. 😍

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  2. O texto é muito bom!

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  3. O texto é muito bom!

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  4. Parabéns pela sua lucidez e texto/opinião, a qual partilho e luto muito mais pela Equidade do que pela hipocrisia da Igualdade. Obrigado pela frontalidade. Assim vale a pena lutar por uma sociedade justa.

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Feminismo é a ideia radical de que mulheres são gente!