Diários de Uma Feminista. Tecnologia do Blogger.

Não são as feministas que são feias e mal-amadas, você que é um macho frustrado



Os machistas nunca têm argumentos bem fundamentados para refutarem o feminismo, a prova disso é que sempre apelam para a estética ou moral das mulheres feministas as chamando de "gordas", "feias", "peludas", alegando que elas têm "cabelo ruim", que são "mal-amadas", "vadias", pois não conseguem refutar a nível discursivo as feministas com as quais discutem, dessa forma, eles enquanto seres majestosos e sapientes que são (só que não), recorrem, em geral, para a discriminação estética ou moral, numa tentativa de diminuir a opinião da mulher ao inferiorizar seu corpo, sua cor, seu cabelo, entre outros aspectos físicos, assim como suas relações pessoais com as outras pessoas, ao afirmarem que feministas são ''mal-amadas", "mal-comidas", "mulheres com falta de rola", "mulheres que não transam" ou "putas", o que é uma contradição evidente, pois ou você é uma puta (na singela opinião deles puta é a mulher que transa) ou ''lhe falta rola ou sexo'', porque os dois não dá.

O que me deixa perplexa não é essa atitude imatura deles, mas a hipocrisia ou "cegueira" dos mesmos que não se olham no espelho antes de atirarem pedras nas mulheres e diminuírem suas estéticas. Será mesmo que eles se acham o padrão de beleza com seus pintos tortos, pequenos e murchos, cabelos estilo Zeca Urubu, monocelhas e estética corporal de cuscuzeira...? Vejam bem, não tem problema nenhum no homem não ser padrão de beleza, sua genitália não ser considerada perfeita, seu desempenho sexual não ser dos melhores, ele não tem culpa e ninguém é perfeito, mas ele não ser o ideal de beleza e mesmo assim se achar no direito de humilhar mulheres somente por serem feministas é um erro rude, uma vergonha não parcelada, mas paga à vista. E se ele for "padrãozinho" também não tem moral para proferir tais discursos, continua sendo estupidez da mesma forma, pois apelar em discussões para a estética de seus interlocutores é, no mínimo, sinal de que você não tem argumento, não tem opinião fundamentada e válida, independentemente de você se achar o "roludo do rolê" com sua aparência física.

O ódio contra as feministas é a demonstração do ódio institucional contra as mulheres, em especial contra as mulheres que lutam por mulheres. Discriminar mulheres porque elas são ativistas pelos direitos das mulheres é uma expressão direta da misoginia. Feministas não são feias, esse é um "argumento" que pode ser facilmente refutado se considerarmos que nós somos lindas e maravilhosas, manas, independente do padrão estético e que, ainda, existem mulheres que são feministas (ou que apoiam o feminismo) e são pertencentes ao padrão de beleza social atual, isto é, mulheres que são consideradas bonitas pela mídia e sociedade, tais como Beyoncé, Emma Watson, Jennifer Lawrence, Charlize Theron, entre tantas outras beldades.

Mulheres são feministas por várias razões, não porque se acham feias. O feminismo existe, inclusive, para empoderar a mulher em relação a sua estética, para quebrar padrões de feminilidade impostos, para fazer com que a mulher se sinta bem em ser quem ela é, para que ela ache bonito o que está nas revistas, mas também o que está fora delas que, em geral, são as mulheres gordas, trans, negras, com deficiência, pois todas as mulheres são bonitas, cada uma ao seu modo. Se a mulher está bem com si mesma, sendo magra ou gorda, padrão ou não-padrão, é o que importa. O que importa é o seu bem-estar, é a sua autoestima alta, não o que a sociedade espera dela, até porque, convenhamos, a sociedade nunca está satisfeita, sempre quer mais e mais da mulher, pois o ideal de beleza, como o próprio nome sugere, é inalcançável.

Não são as feministas que são feias e mal-amadas, os machos que alegam isso é que são frustrados... Frustrados porque reconhecem, quando a mulher se impõe como sujeito de voz e de opinião própria, que não podem impor seu falocentrismo ou androcentrismo na vida dela.

A dominação masculina, dessa forma, também se manifesta a nível simbólico e discursivo, não só físico e social. Quando um homem se sente frustrado porque a opinião machista dele não é mais aceita pelas mulheres e por isso ele apela para a discriminação estética é porque lhe faltam argumentos e lhe sobra falta de noção do ridículo, é porque ele se sente impotente e vê cair no ralo o tão famigerado poder do macho.

Pobre macho.

E morreu.

Relato de uma leitora: Precisamos falar de assédio sexual na escola


''Olá, tenho 12 anos, estou no sétimo ano e quero contar o que aconteceu comigo. Eu estava em um momento terrível na minha vida, onde eu mal tinha amigos, porque todos haviam revelado serem o oposto, eu me sentia muito mal por guardar tudo o que eu estava passando para mim, então, por achar ele meu amigo, pelo menos é o que eu considerava, comecei à me abrir com meu professor. Depois de um certo tempo, inusitadamente, ele mudou as conversas para conversas mais íntimas, e foi daí que comecei à me desesperar. Contei tudo para minhas amigas, que foram de total importância neste momento, eu estava me tratando de um quadro depressivo, e isso só me prejudicou. Ele pedia constantemente para ter relações sexuais comigo, insistia em encontros, pedia fotos íntimas, eu chorava muito, descontava em mim mesma, meus braços viviam mutilados, eu estava me isolando de tudo e o medo estava me consumindo, única força que tive foi de meus amigos mais próximos, duas meninas e um menino. Foi se passando o tempo e ele percebeu que eu queria que vissem as conversas, ele ficou muito bravo e brigou comigo, na escola era um monstro, eu tinha medo... medo dele tentar algo, medo das ameaças dele, então eu chorava muito, cheguei à ser internada após ter cortado meus pulsos muito próximo de uma veia, estava tudo um pesadelo. Conheci umas feministas, elas me aconselharam e se uniram criando uma base de força, me ajudando a superar isto, eu fiquei mais forte a situação, elas foram criando um movimento contra esse professor, estava tudo muito bem. Mas, um dia, ele mexeu em meu celular, vasculhou tudo, e à tarde me chamou, conversou comigo porque estava com medo. Eu assumi uma postura firme, joguei o que eu estava sentindo, e acho que a coisa que me libertou foi o perdão que dei. Mas... esse momento na minha vida, que nunca achei que iria acontecer, foi horrível, passei perto de morrer, e sei agora o quanto isso é horrível, e desejo força à toda garota que está passando por isso, minha depressão, só piorou, mas, eu vou melhorar, e agora ele está bem longe de mim.''
- Em anônimo para proteger a identidade da vítima.

Assédio sexual na escola, ele existe e precisa ser combatido. O relato dessa menina de apenas 12 anos é mais um entre tantos casos escritos/falados/expostos ou silenciados, de tantas crianças e adolescentes que sofrem assédio em ambiente escolar de seus próprios professores, maioria dos casos assédio e abuso sofrido por alunas mulheres por parte de seus professores homens. Professores abusadores, eles existem, infelizmente, e sua posição de poder no ambiente educacional, muitas vezes, os isentam de suspeitas e punições. As vítimas, estudantes, quando expõem os casos, muitas vezes, são desacreditadas e mesmo culpabilizadas. A cultura do estupro e da pedofilia faz com que as vítimas que falam sobre o caso sejam culpabilizadas, faz com que elas sejam vistas como "exibidas que provocaram o professor", sendo a culpa desse camuflada e absorvida diante do sistema e da sociedade. Machos isentados de seus erros, nada de novo sob o patriarcado.

Lizandra Souza.

O ódio contra as feministas é a demonstração do ódio institucional contra as mulheres



Feministas, as filhas de satã. Bruxas. Putas. Degeneradas. Mal-comidas. Mal-amadas. Mulheres-machos. Histéricas. Feias. Peludas que usam sangue de menstruação em pactos com o diabo. Anti-higiênicas. Imorais. Misândricas opressoras de machos. Loucas que buscam privilégios para as mulheres. Assassinas de bebês. Cortadoras de bilaus. Destruidoras da família, da moral e dos bons costumes. Esses são alguns dos discursos antifeministas usados para deslegitimar e difamar a luta das feministas na e para a sociedade.

Antifeministas criam estigmas sociais, discursos e imagens problemáticas associadas ao feminismo para fazer com que as pessoas, sobretudo as mulheres, odeiem as feministas. Isso explica o fato de que apesar de toda sua história, lutas e conquistas em prol das mulheres, ainda hoje existem pessoas que desprezam o feminismo. Esse ódio desmedido contra as feministas é a demonstração do ódio institucional contra as mulheres, é uma expressão direta da misoginia, isto é, do ódio, da repulsa ou desprezo pelo gênero feminino ou tudo o que a ele é relacionado. Não é apenas alienação, é ódio contra a mulher. Essas práticas discursivas que distorcem o movimento feminista e o que ele representa foram constituídas e são (re)produzidas, legitimadas e sustentadas numa sociedade que odeia mulheres, sobretudo mulheres que lutam por mulheres.

Quais pessoas historicamente lutam de forma articulada pelas mulheres, por seus direitos e por seu lugar de cidadã na sociedade? As feministas, mulheres que lutam pela desinstitucionalização do ódio que a sociedade patriarcal legitima contra as mulheres. Esse ódio é manifestado no estupro, no feminicídio, na agressão física, verbal, emocional e psicológica contra a mulher pelo simples fato de ela ser mulher. E o que é ser mulher? Em questões sociais, é ser o sexo frágil e inferior, o apêndice masculino, a propriedade sexual dos machos, a dona de casa submissa, a útero-vagina-ambulante, a silenciada, a abnegada, a reprimida, a julgada, a culpabilizada, a agredida, a humilhada, a violada.

A violência contra a mulher somente pelo fato de ela ser mulher é a expressão do ódio institucionalizado ao gênero feminino. Quando um homem assassina sua (ex)companheira porque ela não quis mais estar ao seu lado, ele está demonstrando que via aquela mulher como um objeto sexual seu e que, portanto, não tinha o direito de viver se não fosse sob seu controle. Quando um homem estupra uma mulher ele está demonstrando que a força física dele é superior a dela, que ele tem o poder e, portanto, irá submetê-la a algo que ela não quer, pois a recusa dela não o interessa diante da demonstração do poder do macho. Quando uma mulher é culpabilizada pelo estupro por causa de suas roupas, do lugar onde estava, do que ela tinha bebido, a sociedade que a culpabiliza está demonstrando que a odeia tanto que o estuprador teve motivos para violentá-la, que a culpa pelo estupro é dela, não do macho estuprador. Para ela a culpa, para ele a desculpa. Quando a sociedade legitima que a mulher que sofre violência doméstica ''apanha porque quer'', ela está dizendo que a mulher é, mais uma vez, culpada pela agressão que sofreu do macho, isso porque não importam as condições em que ela vive, os filhos que ela tem que sustentar, as ameaças que ela tem que suportar, a vergonha, o medo e a dor que ela carrega no corpo e na alma, pois o macho só é agressor porque a mulher deixa ele ser. Ela é a responsável pela canalhice dele.

Nós feministas buscamos mudar essa realidade e isso incomoda. Incomoda porque a mulher em situação de violência constitui as bases para os privilégios masculinos e a luta pelo fim da violência contra a mulher constitui um obstáculo a manutenção do poder masculino. Por isso a sociedade misógina, regulada pela dominação masculina, internaliza nas mulheres as ideologias misóginas, ensina às mulheres que ''feminismo é falta de rola", é falta do que fazer, que ''feminista é tudo louca mal-amada'', que "mulher de verdade não precisa do feminismo", para que as mulheres não formem um grupo articulado contra a sustentação do poder do macho.

Todavia, isso não basta para impedir que as mulheres feministas continuem com a luta, logo outras ferramentas são usadas para refrear o movimento feminista, entre elas a censura feminina por meio das redes sociais. Delas cito aqui o Facebook, por ser a rede que mais interajo com outras militantes virtuais.

Ser mulher, feminista, LGBT+ e/ou pessoa negra e militar virtualmente no Facebook vem se demostrando nos últimos anos um ato de resistência. Cada vez mais nós ativistas das mais variadas causas recebemos ataques em massa de grupos reacionários e temos nossas contas e páginas de militância bloqueadas porque supostamente elas ferem os padrões da rede. E é aí que fica a dúvida, quais padrões são esses?

Segundo as políticas do mecanismo de denúncia do próprio Facebook, nós podemos denunciar perfis, páginas e publicações se existirem neles a reprodução de discurso de ódio a um sexo, etnia, crença, orientação sexual... apologia/incitação ao crime, conteúdo sexualmente explícito/nudez/pornografia, posts que descrevam a compra ou venda de drogas, de armas ou produtos adultos... conteúdo que seja ameaçador, violento ou suicida entre outros. Na teoria isso é lindo, afinal são padrões que prezam pelos direitos humanos, pela integridade e segurança das pessoas que estão conectadas na rede. Mas na prática as coisas funcionam bem diferentes. A hipótese que eu tenho é que o que importa, para a equipe que recebe e analisa as denúncias ocorridas na comunidade, não é o conteúdo do que foi denunciado, mas a quantidade de denúncias que ele recebeu, o que deixa nós, ativistas, vulneráveis aos ataques em massa, de grupos reacionários, os quais, se pensarmos bem, ainda fazem parte das hegemonias, logo têm maior poder de articulação.

Seja através de discursos falaciosos, seja por meio da culpabilização ou censura, a todo momento querem nos silenciar. Isso nada mais é que ódio e medo. Nos odeiam e nos temem pelo que representamos. Representamos a força feminina e a chance de transformação social das relações de poder.


Lizandra Souza.

Quem tem medo de mulher empoderada?



Mulheres empoderadas, decididas, livres, leves, soltas! Mulheres que tomam as decisões sobre a própria vida sem se deixarem intimidar ou limitar pelas expectativas alheias. Mulheres agressivas, duras e diretas. Mulheres subversivas, ativas, fortes. Mulheres belas, desbocadas, do bar. Mulheres que se amam. Mulheres que se acham (e são) bonitas independente dos padrões. Mulheres que lutam. São essas as mulheres que o patriarcado teme. Que os machos temem. Que muitas mulheres, infelizmente, temem. 

O patriarcado espera de nós abnegação, subserviência, submissão e docilidade. Espera que sejamos belas, recatadas e do lar. Nos limitam aos espaços domésticos, a inexpressividade do ser. A recusa calada. A dor sufocada. O grito calado. A revolta controlada. A censura internalizada. A violência aceita e romantizada.

O patriarcado não quer que nós mulheres sejamos livres. Ele prende-nos em suas prisões. Prisões do corpo. Prisões dos sentimentos. Prisões da mente. Prisões da alma. Somos socializadas para sermos meras bonecas e apêndices masculinos. Nossa vida é construída ao redor da vontade do macho. Do poder do macho. Quando uma mulher se empodera, quando uma mulher toma o poder sobre si mesma e começa a pautar a própria vida buscando sua realização plena enquanto uma mulher-ser-humano e não uma mulher-sub-humana, o patriarcado pira e gira. Os machos choram. Muitas mulheres se chocam. E os ET's refletem sobre a minha sonhada abdução.

É por isso que feministas são odiadas. Pois mulheres que infringem a ordem masculina são temidas. Os machos sentem medo de mulheres empoderadas porque elas formam um grupo contra-hegemônico que pode balancear as relações de poder que os beneficiam. As relações de poder que fazem com que as mulheres sejam sujeitadas, subordinadas, reprimidas, humilhadas, estupradas, assassinadas, espancadas... por machos na sociedade patriarcal.

Uma mulher empoderada pode sim ser heterossexual, gostar de homens, se relacionar com homens, amar homens. Contudo, ela sabe que o amor próprio, que o amor por si mesma, vem em primeiro lugar. Esse amor não a torna egoísta, mas quase filantropa, afinal, como realmente amar os outros sem antes amar à si mesma? É praticando o amor próprio que o amor à humanidade, à vida, à uma pessoa em especial é plenamente vivido.

Uma mulher empoderada sabe que as decisões sobre a sua vida cabem a si própria. Ela pode sim precisar da ajuda de outras pessoas, pedir opiniões e conselhos, mas, no fim, com raras exceções, ela fará aquilo que acha certo, não o que os outros esperam que ela faça. Ela se veste como gosta, ela bebe se quiser, porque não tem essa de ''é feio ver mulher bebendo'', ela sabe que quem está incomodado pode muito bem fechar os olhos, sair de perto dela ou morrer. Ela transa se ela quiser. E ela não transa se ela não quiser transar. Ela sabe que a liberdade sexual dela consiste tanto no direito de dizer sim, como no direito de dizer não. Ela não abaixa a cabeça fácil, ela luta, ela grita, ela xinga. Ela revida, porque ela sabe como é difícil ser mulher, mas como é mais difícil ainda não ser a mulher que se é.

Os machos têm medo de mulher empoderada, esse medo é figurado nos discursos de ódio, expressões da misoginia, que eles reproduzem contra as mulheres feministas. Até entendo (mentira) os machos. Analisemos. Você é um macho que foi criado achando que ''mulher é inferior ao homem'', que ''homem pode tudo, mulher pode muito pouco'', que ''homem é o sexo forte'', que ''a mulher tem que ser frágil, submissa e delicada''. Certo dia você tenta aplicar isso na vida de uma mulher, tentando controlá-la, mas você não sabia que ela era feminista e, então, recebe como resposta um sincero "vai se foder" para sua tentativa de repressão. É claro que a sua masculinidade seria abalada! Como assim a mulher não permitiu você, o majestoso mascu do rolê, regular a vida dela? Absurdo!

Infelizmente mulheres ponderadas também têm medo de mulheres empoderadas. Isso faz parte do grau de internalização do machismo por parte da socialização que tiveram, da cultura da rivalidade feminina, assim como também por alienação social. Aprendemos, por um lado, que devemos ser submissas, recatadas, subordinadas, por outro, que nós mulheres somos todas rivais, que vivemos fazendo disputas entre nós, que não podemos ser amigas verdadeiras. Dessa forma, quando uma mulher se sobressai por ser insubmissa, muitas a veem de forma negativa, achando que aquela mulher ''quer tomar o seu lugar", "quer aparecer'', "quer ser melhor que ela" ou, ainda, que aquela mulher ''não presta'', ''não tem valor'', ''não se dá ao respeito'', porque ela não age de forma regulada como elas.

Independente das pedras e das mordaças no nosso caminho, nós temos o direito ao grito. Então, gritemos! Gritemos contra o patriarcado. Gritemos contra quem ousa nos censurar, nos limitar, nos coagir, nos diminuir, nos violar, nos matar... Nos impedir de sermos o que somos.

Lizandra Souza.

Feminista e cristã?





Um comportamento que vem me incomodando muito nos espaços feministas virtuais consiste em algumas problematizações inócuas, como as que questionam se "dá para ser feminista e ser cristã?" ou as que perdem o teor de questionamento, logo de incerteza, e afirmam como verdade universal a ser seguida que ''não dá para ser feminista e ser cristã'', pergunta e afirmação essas que, geralmente, são levantadas aparentemente apenas com o objetivo de gerar polêmica ou de deslegitimar vivências plurais, pois não levam, na maioria das vezes, a uma discussão respeitosa, séria e útil.

Vou na contramão da reprodução dessa ideia e afirmo que ser cristã, por si só, não impede nenhuma mulher de ser feminista. Ser cristã fundamentalista, alienada e/ou intolerante é que impede a mulher de ser feminista. Aliás, a impede não só de ser feminista, mas também de ser sensata. Essas assertivas podem ser legitimadas se partimos da ideia genérica de que feminista é a mulher que luta contra a violência de gênero, buscando o empoderamento feminino e o fim do patriarcado e ser cristã pode significar apenas a crença da mulher no Deus do cristianismo, sem deixar que essa crença ou fé interfira de modo negativo na vida dela e na forma como ela interage socialmente com outras mulheres.

A história das religiões hegemônicas, como as cristãs no Ocidente, é fortemente marcada pela opressão às mulheres, através da pregação da ideia da superioridade masculina e inferioridade feminina como sendo um fato inato, inerente e inquestionável feito por Deus na divisão dos gêneros e dos papéis sociais que cada um deles devem exercer de acordo com sua biologia. Durante séculos a Igreja, por exemplo, foi conveniente com o patriarcado, sendo esse uma de suas bases. Contudo, com os avanços sociais, advindos da globalização, das tecnológicas digitais, dos movimentos e revoluções sociais, nossa contemporaneidade fragmentou, descentralizou e pluralizou o sujeito, fazendo com que ideias antes fixas e estáveis de identidade cultural não tenham mais sentido de ser na pós-modernidade.

Com isso, muitas feministas conseguiram problematizar discursos e práticas religiosas antes inquestionáveis, como questões referentes a submissão feminina, ao divórcio, a violência doméstica, ao ''direito'' do marido de estuprar a esposa por essa ser vista como sua propriedade sexual, ao uso de métodos anticoncepcionais, a escolha da mulher de não ser mãe, entre outras, que permearam as relações sociais, atingindo as mulheres cristãs e não-cristãs. Muitas mulheres cristãs, ensinadas a não questionarem a ordem masculina, pois isso seria uma blasfêmia contra Deus, passaram a recusar discursos de aceitação e conformidade, questionando os papéis sociais e culturais - construídos pelos homens para privilegiar os homens - que lhes são impostos sem, para tanto, precisarem abdicar de sua fé em Deus, em uma outra vida, etc. Diante disso, dizer que não dá para ser feminista e ser cristã é dizer que essas mulheres cristãs não têm espaço dentro do movimento feminista. É, por tanto, excluí-las da causa, as deixando ao ''Deus dará'' e contribuindo para que muitas continuem reproduzindo machismo e misoginia por não terem a oportunidade de acesso ao feminismo ou, ainda, a oportunidade de conviverem com mulheres solidárias, dispostas a ajudá-las em seu empoderamento e tomada de consciência a respeito da violência de gênero.

Acredito que as mulheres que acreditam no Deus do cristianismo, sem fundamentalismos, sem atitude de discriminar outras mulheres que não seguem a mesma religião, que não têm a mesma fé, mulheres que sejam religiosas, mas que critiquem o sistema, que não aceitem passivamente os discursos dados, possam sim lutar pelos direitos das mulheres e, portanto, serem feministas, incluindo, com isso, a possibilidade de problematizar a própria instituição Igreja. Conheço mulheres católicas e evangélicas que são feministas e que são favoráveis a legalização do aborto. Isso parece contraditório, mas o sujeito pós-moderno realmente o é. Essas mulheres, por suas crenças, alegam que não fariam um aborto, porém não julgam as mulheres que fariam, não as condenam nem discriminam pelas decisões sobre o próprio corpo, afinal autonomia corporal é uma das bandeiras-bases do movimento feminista.

Não dá para ser feminista e acreditar na submissão feminina como algo natural e aceitável. Não dá para ser feminista e acreditar que as suas decisões, as suas crenças e as suas opiniões são universais e devem pautar a vida de outras mulheres. Não dá para ser feminista e ser fiscal da vida de outras mulheres. Não dá para ser feminista e limitar as perspectivas e as escolhas das outras mulheres para adequá-las a sua visão de mundo. Não dá para ser feminista e ser cristã se você usa suas crenças ou religião para subordinar, censurar, limitar ou discriminar outras mulheres que não seguem o seu padrão de vida. Agora, ser feminista e vivenciar sua fé de forma individual, não há problema nenhum.


Não estou tentando promover uma união entre movimento feminista e religião com essa minha posição, muito menos deslegitimar críticas acerca da religião, acredito que o feminismo não só pode como deve criticar as instituições religiosas, os dogmas e os discursos religiosos fundamentalistas, muitos dos quais contribuem com a sustentação do machismo, da homofobia, da transfobia, do racismo, entre outras formas de discriminação, assim como também deve problematizar as mulheres cristãs fundamentalistas que normatizam suas crenças, impondo-as para outras mulheres, contudo, acredito que para tal não é necessário ''expurgar'' a mulher de sua espiritualidade, crença ou fé pessoal. Já disse Adélia Prado, "Mulher é desdobrável". Nós somos.


Lizandra Souza.

Feminismo, uma questão de igualdade ou de equidade?



Feminismo a meu ver não é sobre ''igualdade de sexo'', ''igualdade entre os gêneros'', ''igualdade entre homens e mulheres''. Isso nunca vai existir. Mulheres e mulheres não são iguais, muito menos mulheres e homens. Feminismo não existe para pregar que mulheres sejam iguais aos homens. Eu não quero me igualar a um gênero opressor. Eu não quero que ocorram 5 espancamentos de homens, por mulheres, no Brasil, a cada 2 minutos. Eu não quero que 1 homem seja estuprado a cada 12 minutos no Brasil. Eu não quero que a cada 90 minutos 1 homem morra por questão de gênero. Eu não quero que cerca de 180 homens, por dia, relatem agressões sofridas em um sistema de atendimento de denúncia só para homens. Eu não quero que 43 mil homens sejam assassinados, 43% em casa, em 10 anos, por mulheres só por serem homens. Eu não quero que homens ganhem menos que mulheres só por serem homens, mesmo havendo na lei que não é permitida discriminação por gênero. Eu não quero que os homens passem por tudo o que as mulheres passam somente por serem mulheres. Repito, eu não quero me igualar a um gênero opressor.

''Ah, mas a "igualdade de gênero" não é sobre homens e mulheres serem iguais, é sobre a igualdade de direitos e deveres'', disse a mulher que tem por lei os mesmos direitos que os homens, mas que na prática continua ganhando menos que eles exercendo a mesma profissão, com mesma carga horária de trabalho ou, ainda, disse a feminista que não quer lutar para ser obrigada a se alistar obrigatoriamente no exército, ou, pelo menos, lutar pelo fim da obrigatoriedade disso para os machos...  Afinal é exatamente isso o que a igualdade de deveres prega, não? Percebem como esse discurso de igualdade é raso e gera argumentos inócuos como esse do alistamento mimimilitar?

É por causa dessa ideia superficial de igualdade que tem gente que acha que feminista é a mulher que quer ser homem. Quem, amigas, com plena razão e consciência vai militar para ser igual a macho? Essa expressão "igualdade de gênero'' é problemática demais, pois ela em geral não é concebida como igualdade política, ela não gera só esses "chorôrôs" que nós feministas temos que aturar diariamente, mas também problemáticas que implicam no apagamento de questões de sexualidade, etnia e classe social dentro da militância feminista. Mulheres negras em oposição as mulheres brancas, mulheres lésbicas, bissexuais, assexuais ou pansexuais em oposição as mulheres héteros, mulheres transexuais em oposição as mulheres cisgêneros, mulheres pobres em oposição as mulheres ricas/classe média alta, ocupam relações de poder diferenciadas nos sistemas de dominação-exploração, somente pelas especificidades de etnia, sexualidade e classe. Dessa forma, o feminismo não visa tratar nem as mulheres de forma igual, pois não existe uma igualdade de gênero nem entre as mulheres, pois existem especificidades que precisam ser tratadas de forma diferenciada justamente para que haja justiça social, quem dirá então igualar utopicamente homens e mulheres.

Eu, enquanto feminista, quero EQUIDADE social, política e econômica entre todos os gêneros, isto é, entre mulheres, homens, não-binários. Equidade vai além dessa igualdade usada nesse discurso raso e utópico de que feminismo é "igualdade de gênero", discurso que só serve para inserir macho no movimento, para se preocupar com sofrimento de macho, com a ''opressão do macho pelas misândricas nesse mundo pós-moderno'' ou, ainda, para camuflar esse liberalismo econômico que no fim das contas só iguala homens e mulheres brancos de classe social privilegiada. A equidade social tem como pré-requisito a isonomia, a justiça e a assimetria social, superando, dessa forma, a ideia de igualdade, pois ela visa tratar igual os socialmente iguais, mas tratar de forma diferenciada positivamente os que assim necessitam, por estarem em desvantagem diante de determinado grupo social. Por exemplo, eu tenho 10 laranjas e pretendo distribui-las entre 5 pessoas. Dessas 5 pessoas, duas já têm 2 laranjas cada, enquanto o restante possui 0 laranjas. Igualdade é eu dar 2 laranjas a cada uma das 5 pessoas, equidade é eu dar duas laranjas apenas para as três pessoas que não possuem nenhuma, pois se eu der duas laranjas para todas as 5 pessoas, ignorando as 2 que que já tinham 2 laranjas, eu estaria agravando as desigualdades entre elas, ou seja, a própria "igualdade" estaria funcionando como um mecanismo de tensões entre essas pessoas. Por isso eu escolho a equidade! E as 4 laranjas que sobraram? Eu as chupo, ué... Não, eu as guardo para distribuir para mais pessoas que não tenham 2 laranjas. Eu não tenho nenhuma, logo ficarei com 2 e guardarei as outras 2 para alguma leitora que não tenha e goste de suco de laranja após uma boa misandriada diurna.

Feminismo não é sobre igualdade de gênero, já passou da hora de tentarmos reverter essa frase de efeito rasa, feminismo é sobre empoderamento feminino, é sobre os direitos reprodutivos da mulher, é sobre o fim do sistema de dominação-exploração da mulher pelo homem/cis, é sobre equidade social, política e econômica entre os gêneros. É sobre justiça social. É sobre muitas coisas, até sobre laranjas, menos sobre o desejo de as mulheres serem iguais aos machos.


Uma última consideração, como nem todo mundo conhece o termo equidade, pode-se até falar em “igualdade” inicialmente quando se for introduzir o tema feminismo para alguém leigo no assunto, contudo é importante frisar a expressão “igualdade política e social”, para posteriormente desenvolver a ideia até se chegar na equidade. 

Lizandra Souza.

Relacionamentos abusivos nossos de cada dia



Quando a gente fala em relacionamentos abusivos, geralmente vem à mente aquele quadro que figura um casal hétero/cis, no qual a mulher sofre por causa de comportamentos abusivos, violentos, machistas e misóginos do macho escroto seu companheiro. Contudo, as relações abusivas não se limitam as relações entre homens e mulheres cis/héteros. Casais formados por gays, lésbicas, bissexuais, pansexuais - entre outras sexualidades - incluindo não só pessoas cisgêneras, mas também trangêneras/transexuais, também estão sujeitas a comportamentos abusivos, assim como as relações entre pais e filhos, entre amigos, entre professores e alunos, chefes e empregados, entre outros, também podem ser abusivas.

A grande massa de relações abusivas entre casais é, de fato, a constituída das relações entre homens e mulheres héteros. Uma hipótese que fundamenta esse fato é a socialização díspar de gênero, a qual ensina os meninos, desde cedo, a tentar ter controle sobre as meninas e essas, diante disso, a se deixarem controlar. Um comportamento abusivo recorrente nos relacionamentos héteros/cis consiste no macho se sentir dono da vida de sua companheira, como ele foi ensinado que a mulher é sua subordinada e propriedade, ele se sente no direito de controlar as roupas que ela usa, censurar suas amizades, limitar os espaços que ela frequenta, caso tudo isso fira sua frágil masculinidade figurada no poder que detém sobre a mulher.

A manipulação psicológica e a emocional são dois mecanismos usados pelos machos para sustentarem esse controle sobre as parceiras. Muitos vivem de inferiorizar, humilhar, ridicularizar, enfim, baixar a autoestima de suas companheiras, fazendo-as crerem que ninguém, além deles, os ''masculosos do rolê'', as quererão, as amarão e as respeitarão. Ou, ainda, a dominação manifesta-se de forma física, quando eles agridem suas cônjuges e usam mil desculpas esfarrapadas de que fizeram isso porque as amam tanto que não conseguiram se controlar, sendo que não é o amor que bate, que espanca, que humilha, mas o ódio. Todavia, os machos são seres sapientes, eloquentes, majestosos, parrudos, têm sempre a razão. "Ah, mas homens, em se tratando de relações entre pares, também não sofrem com relações abusivas?'', sim, sofrem, mas são casos isolados, não potencializados e, em geral, não motivados por questões de gênero. E sim, também podem ser nocivos, mas não é dever nem pauta das mulheres feministas problematizarem isso, os próprios homens podem fazer isso, é até melhor que não perdem tempo metendo o bedelho na vida das mulheres.

Casais formados por homens gays (cis ou trans) também podem ser abusivos, já conversei com gays que se sentiam reprimidos pelas atitudes abusivas dos parceiros em tentar definir uma performatividade ou expressão de gênero que não fosse tão "pintosa", pois ser afeminado, para muitos gays, é algo abominável, ou, ainda, o contrário, gays afeminados censurando os parceiros ''masculinizados'', pois uma expressão masculina ''trai o movimento''. Existem mulheres lésbicas possessivas com as parceiras, que as objetificam e as agridem fisicamente. Tenho amigas que já vivenciaram relações abusivas com mulheres lésbicas que não cansavam de as agredir, por acharem ser suas donas ou ter esse direito por estarem se relacionando. Controle de vestimenta, de amizades, de espaços, também podem acontecer em relações não-héteros por parte de um membro do casal. Casais não-héteros também podem vivenciar relações abusivas, as quais podem ser tão nocivas quanto as vividas pelos casais héteros-cis, apesar de acontecerem em menor frequência.

E pais e filhos? Claro que também podem vivenciar relações abusivas, nas quais tanto os pais podem ser abusivos quanto os filhos. Pais violentos, que se acham donos dos corpos de suas filhas e as obrigam a se vestirem de acordo com "as leis" deles, mães grosseiras que humilham seus filhos, pais e mães que expulsam seus filhos de casa ou os espancam por não serem héteros-cis, pais que estupram suas filhas, mães convenientes com o abuso de suas filhas por parte de seus companheiros, filhos que tratam as mães como empregadas e os pais como provedores infinitos de sustento, filhos que abandonam seus pais na velhice, que os exploram e depois "os jogam fora'', são alguns exemplos disso.

Existem também aqueles amigos e amigas abusivos. Quem nunca teve aquela amiga que só procura você quando precisa de ajuda? Ou aquele amigo sumido que aparece quando não tem mais ninguém para conversar? Aquelas pessoas que manipulam você, que se aproximam de você, aproveitam da sua boa vontade, dão a entender que são suas amigas e do nada somem? Sem explicação, sem aviso, vivem de idas e vindas na sua vida, como sanguessugas, sugando sua energia e o que há de bom em você, para depois esquecerem que você existe.

Professores e alunos formam outro grupo que vivenciam relações abusivas, tanto por parte do professores quanto por parte dos alunos. Professores egocêntricos, conservadores, autoritários que desconsideram as vivências dos alunos, que os tratam como tábuas rasas ou, ainda, que aproveitam de sua posição de poder para intimidar e assediar alunas (e alunos) existem, casos e mais casos são o que não faltam. Alunos grosseiros, intolerantes, prepotentes e assediadores também. Como professora de português e literatura e, ainda, como estudante/pesquisadora, conheço essa realidade de perto. As relações abusivas infelizmente se sobressaem muito em ambientes institucionais, como nas instituições de ensino (superiores ou não).

Relacionamentos abusivos entre empregadores e empregados também são muito problemáticos, sendo permeados, sustentados e legitimados pelas relações de poder que fomentam os sistemas de classes, as estratificações sociais, que privilegiam os detentores do capital em detrimento da exploração dos descapitalizados. Chefes abusivos, que aproveitam da situação vulnerável ou desfavorecida de seus subordinados para humilhá-los, inferiorizá-los, ofendê-los, assediá-los ou descontar neles suas frustrações são recorrentes no dia-a-dia da classe trabalhadora. Apesar das leis trabalhistas, dos direitos dos trabalhadores a dignidade humana, nem todos têm as mesmas oportunidades e condições de enfrentar o sistema e denunciar seus patrões abusivos.

Esses exemplos são apenas algumas sínteses de como algumas relações abusivas são variadas e como as relações de poder social influenciam-nas de modo que ninguém está livre de sofre com isso. Listo, diante disso, alguns comportamentos abusivos gerais que podem permear qualquer tipo de relacionamento abusivo.


1. Controle. Isso nunca é um bom sinal, não diz respeito a preocupação e amor que a pessoa sente por você, mas sobre como ela te ver como um objeto dela que pode ser, inclusive, moldado por ela ao seu bel-prazer.

2. Manipulação psicológica que ocorre, por exemplo, quando a pessoa distorce fatos, desvalida suas falas e faz parecer que você está perdendo a razão por conta de algum comportamento problemático dela que você questionou.

3. Agressão física. Jamais aceite-a sob a desculpa de falta de controle, pois na verdade é excesso. A pessoa acha ter tanto controle sobre você que não dá a mínima em respeitar seu corpo, sua dignidade humana.

4. Humilhação ou zombaria com você através de pseudopiadas, em momentos a sós ou públicos, com a família, amigos, colegas de trabalho.

5. Inferiorização da imagem, isso é um comportamento recorrente de pessoas abusivas, as quais deixam seus alvos com a autoestima baixa, pois assim eles ficam mais vulneráveis ao seu domínio.

6. Intimidação e/ou ameaças são dois mecanismos usados pelos abusadores para manipular e manter as relações abusivas, fazendo com que sua parceira, amiga, filha, empregada ceda a sua vontade.

7. Omissão de fatos, outro aspecto que pode ser usado em situações de manipulação. Falar "meias-verdades", omitir fatos importantes não é um bom sinal.

8. Ciúmes excessivos não são sinais de uma relação sadia e segura. Procure não só ter, como receber, confiança.

9. Desconsideração e falta de empatia. Quando somente você se preocupa em ser solidário, não é uma relação reciproca, cuidado, podem estar usando você.

10. Culpabilização x vitimização. Analise se você é realmente a culpada por um problema, tem muito cara de pau por aí se vitimizando e atribuindo os próprios erros aos outros.



Não há uma receita de como sair ou evitar relações abusivas. Estamos sujeitas aos mais diversos relacionamentos abusivos cotidianamente, pois as relações humanas são tão complexas que hoje podemos ser as abusadas, amanhã as abusadoras. Resta-nos nos conscientizar e tentar não cair nessa da forma que pudermos, não banalizando, é claro, essas relações e achando que qualquer desconforto que passemos é um abuso, logo abrir o olho para comportamentos abusivos cristalizados nunca é demais. O seguro morreu de velho, não de abusado.

Lizandra Souza.

Maternidade e feminismo, um diálogo pertinente



A maternidade é um tema caro a vida das mulheres, logo ao feminismo. Discutir a maternidade de forma política é tanto apontar o direito da mulher de ser mãe e de vivenciar uma maternidade plena, consciente e desejada quanto apontar o direito da mulher de escolher não ser mãe, porque experienciar a maternidade não está nos planos de vida dela. Ambas as pautas do ser ou não ser mãe sugerem outras pautas para discussões, tais como maternidade compulsória, romantizada e socialmente construída para oprimir as mulheres, silenciamento das mulheres que são mães dentro e fora do movimento feminista e a repressão que as mulheres que (não) são mães sofrem, socialmente.

Ser mãe deve ser uma escolha, não uma obrigação para cumprir uma convenção social pintada de "destino de mulher". Ter um útero e ser fértil não é pré-requisito para uma mulher querer ser mãe ou ter necessariamente que ser mãe. Nós mulheres somos mais que nossos úteros. Somos mais que a romantização social materna que diz que a mulher só é plenamente feliz, completa e realizada quando tem filhos. Somos mais do que o Patriarcado quer que sejamos. Somos mais que as escolhas que fazem por nós, como a escolha de ser mãe. Que fique claro, escolher não ser mãe é um direito reprodutivo.

A maternidade deve ser uma opção na vida das mulheres, elas devem poder optar por serem mães porque querem, porque se sentem preparadas, porque têm vontade de ter filhos. Não há problema nenhum no fato de uma mulher desejar ser mãe. Para a mulher que quer ser mãe, ter filhos pode ser uma coisa boa, logo escolher ser mãe também é um direito reprodutivo. Acredito que a problematização política acerca da maternidade deva se centrar na construção social de uma maternidade compulsória e romantizada, não nas escolhas pessoais das mulheres.

A maternidade é compulsória porque as mulheres são obrigadas a serem mães. O aborto criminalizado é a prova disso. É óbvio que o aborto não é contraceptivo, mas o fato de ele ser criminalizado desconsidera o fato mais geral de que os métodos contraceptivos são falhos e de que nós não temos uma educação cultural e escolar que informem as mulheres sobre sexo seguro. A responsabilidade sobre a prevenção de uma gravidez, os gastos com pílulas, com as consultas aos ginecologistas, a atitude de tomar bombas de hormônios que muitas vezes trazem efeitos colaterais devastadores, é toda da mulher. Até parece que a mulher engravida usando o próprio dedo. Para os homens, esses seres "masculosos", sobram a escolha de querer ou não transar com camisinha, sendo essa ainda responsabilidade da mulher comprar e carregar sempre uma consigo dentro da bolsa, claro, isso de forma escondida, porque se alguém perceber que ela tem um preservativo na bolsa, ela virará instantaneamente, com efeito superior ao de pó de pirlimpimpim, a ''puta que dá para todo mundo'', a ''promíscua'', a ''mulher rodada'', sem respeito, sem dignidade, sem direito a ter uma vida sexual ativa e segura.

A maternidade é compulsória e romantizada porque há uma compulsão social que legitima a ideologia misógina de que a mulher só é uma "mulher de verdade", completa e realizada, quando ela tem filhos. Nesse quadro, a mulher que ousa dizer que não quer ser mãe tem que aturar os mais variados discursos repressores com o selo de fiscalização de vida feminina. Entre esses discursos está o de que a mulher que não tem filhos poderá se arrepender futuramente, como se não houvesse também a possibilidade de que uma mulher pode muito bem ter filhos e depois se arrepender futuramente. Nem toda mãe ama seu filho. Existem mulheres que são mães e chegam a odiar seus filhos, crianças em situação de maus-tratos são a prova disso. Mães abusivas são a prova disso. Não existe amor materno inato. Assim como não existe amor de nenhum tipo inato, como se fosse uma essência, não um sentimento a ser desenvolvido. Ora, onde está o instinto materno das mães que expulsam suas filhas trans de casa? Onde está o amor materno inato das mães que rejeitam suas filhas lésbicas?

Que a maternidade traz alegrias para muitas mulheres eu não tenho dúvidas, contudo para uma parcela de mulheres, sobretudo as que pertencem às classes sociais mais desfavorecidas, ela é, muitas vezes, usada como mecanismo de opressão. Exige-se que a mulher que é mãe seja 100% abnegada, que ela renuncie aos seus planos e aspirações em função do seu filho, que ela se doe completamente a ele, viva ao redor da vida dele, se limite a ele, ao ponto de que ela, ao ser mãe, deva deixar de ser mulher. Ser mãe e sair com as amigas? Coisa de puta. Ser mãe, trabalhar fora de casa e deixar o pai ou uma babá cuidando de seu filho? Ah, mãe desnaturada! Ser mãe e gostar de se cuidar, psicológica ou fisicamente? Frescura, mãe não precisa disso de vaidade. Ser mãe e solteira? Vagabunda. Ser mãe e solteira e se relacionar com alguém que não seja o pai da criança? Vagabunda. Ter sonhos? Ora, mãe não sonha para si mesma, mas para seus filhos. Mãe tem que estar vinte e quatro horas servindo seus filhos, pois se alguma coisa acontecer com eles, a culpa será dela, independente do pai das crianças aparecer ou não na história. E a educação? Tarefa de mãe. Lavar as roupas, fazer a comidinha, cuidar nos momentos de doença? Tarefas de mãe. Reuniões escolares? Tarefa de mãe. Formação de valores? Tarefa de mãe. Filho fez algo de errado? Culpa da mãe. Filho sofreu um acidente? Culpa da mãe que não o protegeu. Filho se mete em confusão? Culpa da mãe que não o educou direito. Todas essas práticas discursivas constituem as relações sociais que diariamente oprimem, reprimem, silenciam e subjugam mulheres que são mães e que estão em situações de vulnerabilidade social.

Falar em maternidade é também fazer um paralelo com a paternidade. A paternidade não é socialmente compulsória e romantizada, os machos podem não só escolherem se serão ou não pais, como também se cuidarão ou não de seus filhos. Aos descrentes, somente no Brasil mais de 5 milhões de crianças não têm o nome do pai no registro de nascimento. Se mais de 5 milhões de pais recusaram-se a dar o nome, imaginemos o resto que é na verdade o essencial: o amor, o amparo e o cuidado aos seus filhos. Como sempre que uma feminista discute essa pauta, aparece alguém para falar (chorar) que é ''melhor abandonar que abortar'', adianto que abandonar uma criança, um ser humano dotado de senciência, não é o mesmo que abortar um organismo não autônomo que nem senciência e sistema nervoso central tem, em outras palavras, um organismo não individualizado que não pensa, não sente dor, não sente fome, não sente o fardo de saber o que é ser algo. É absurdo que usem esse discurso para romantizar o fato de que enquanto os machos escolhem livremente não assumirem seus papéis de pais e vivem normalmente suas vidas, milhares de mulheres pobres que não quiseram ser mães morrem em clínicas clandestinas.

Como se não bastasse tudo isso, o próprio feminismo não tem visibilizado e acolhido as mães como deveria. Em espaços de militâncias, em geral, elas são apagadas ou mesmo excluídas, não têm voz, não têm vez. Participei de muitos grupos feministas nos últimos dois anos. Administrei por cerca de um ano alguns. E afirmo que ao lado do apagamento das mulheres negras, gordas e trans, está o das mães. Chego a dizer que muito mais. Nesses espaços poucas vezes vi pautas contemplando as mulheres que são mães, mas várias vezes vi discursos de ódio contra crianças, discursos preconceituosos contra mães, como se lutar contra a maternidade compulsória equivalesse a discriminar crianças e mães. Diante desse quadro de discursos e práticas opressoras contra mulheres que são mães, fica evidente que essas mulheres precisam do feminismo tanto quanto as que não querem ser mães ou que não são. E nenhuma mulher que é mãe, provavelmente, vai se sentir acolhida em espaços que preguem um "mundo livre de crianças", em uma militância elitizada que não se preocupa de, em eventos, aderir espaços para mães e ''suas crias'', em se sentir representadas por mulheres que alegam odiar crianças, como se dizer "odeio crianças" equivalesse a "não gosto da ideia de ser mãe".


Nós, feministas, podemos acolher as mulheres que não querem ser mães, que não são mães, combatendo, em nossa luta, toda e qualquer prática social que discrimine e reprima a escolha dessas mulheres, assim como também podemos acolher as mulheres mães e suas crias, que tanto precisam do movimento feminista. Parodiando Adélia Prado, feministas são desdobráveis. Nós somos! Se tem uma coisa que a gente pode é poder.

Lizandra Souza.

Afinal, o que é feminismo interseccional?



Feminismo, de forma genérica, é um movimento sociopolítico que busca uma sociedade livre do patriarcado, entendido aqui como o sistema de dominação-exploração da mulher pelo homem. Com o fim do patriarcado, espera-se, sobretudo, que as mulheres não sofram mais com a opressão de gênero, que as relações sociais entre homens e mulheres não sejam tão assimétricas e que as mulheres sejam ensinadas a se empoderarem, não a se alienaram diante de seu gênero. Todavia, apesar de "feminismo" ser geralmente usado no singular, a ideia que ele contempla deve ser vista no plural, pois não existe "um feminismo", mas feminismos ou movimentos feministas, heterogêneos, plurais e com suas próprias formas de articulação e promoção de pautas a respeito dos direitos das mulheres, o que fica evidente com as suas mais variadas vertentes. 

O feminismo interseccional (ou intersec) é uma das vertentes do movimento feminista. Ele diz respeito as intersecções ou recortes de opressões e vivências que devem ser feitos quando se for analisar as estruturas sociais de dominação-exploração, assim como os sujeitos que são atingidos (des)favorecidamente por elas. As feministas intersecs defendem, por exemplo, o recorte de gênero, de condição de gênero, de etnia, de classe, de orientação sexual, pois reconhece-se que as mulheres não sofrem todas juntas as mesmas opressões e que nem sempre a mulher está em situação de desvantagem nas relações de poder na sociedade, pois estas não se configuram somente no sistema patriarcal tendo em vista que existem outros sistemas de opressão que envolvem etnia, classe, sexualidade etc. 

Diante disso, a interseccionalidade no feminismo importa porque podemos ser todas mulheres e isso já nos traz algo em comum. Anatomia? N Ã O! Leitura anatômica é cisnormativa. Nem toda mulher é cisgênero. Me refiro ao lugar que todas nós ocupamos na opressão de gênero: o lugar da subordinação-exploração. Nós somos subordinadas. Nós somos exploradas. Nós somos inferiorizadas. Nós somos o grupo oprimido em contraste com o grupo opressor-dominante no sistema hierárquico de opressão de gênero, isto é, o grupo que por ter o poder nas relações sociais de dominação-exploração de gênero é privilegiado NESSE sistema, que é o grupo formado pelos homens/cisgêneros. 

Toda mulher, dessa forma, independente da condição de gênero (cisgênera ou transgênera), etnia, sexualidade, faixa etária, peso, altura, classe social... SOFRE com o machismo, a misoginia, o androcentrismo, o falocentrismo, pilares do patriarcado. Em algumas mulheres isso pode ficar mais evidente que em outras, mas independente dos condicionamentos a que estamos expostas, todas nós, de uma forma ou de outra, sofremos com o sistema patriarcal. Porém, NEM toda mulher sofre com o racismo, nem toda mulher sofre com o sistema social heteronormativo, o que promove a acefobia, bifobia, lesbofobia, panfobia, entre outras opressões por sexualidade, nem toda mulher sofre com a transfobia, nem toda mulher sofre com a gordofobia, nem toda mulher sofre com o capacitismo, nem toda mulher sofre com o elitismo e/ou sistema hierárquico de classes, nem toda mulher sofre todas as opressões (ainda bem!), logo UNIVERSALIZAR vivências e colocar "as migas" no mesmo pacote de vivência e opressão é silenciador na medida em que não se estão reconhecendo privilégios que mulheres podem ter, sejam de etnia, de classe, de orientação sexual.

Podemos relacionar o surgimento dessa vertente ao fato de que historicamente o movimento feminista tem privilegiado SOBRETUDO as pautas de mulheres (cis) brancas, heterossexuais e classe média/alta. Mulheres negras, pobres, de periferia, não-heterossexuais, transexuais, por exemplo, só vieram ganhar maior visibilidade ou pautas ESPECÍFICAS a partir dos anos finais da década de 80 do século passado. O que havia antes era uma universalização da categoria mulher, uma especie de "somos todas iguais", um feminismo da igualdade, o que colocava toda mulher no mesmo ''pacote de vivências e opressão'', ou seja, um grande apagamento da luta das mulheres negras feministas, entre outras pertencentes a alguma minoria política, por um lugar de protagonismo no movimento. 

O feminismo interseccional surgiu, assim, como um feminismo da diferença, como uma crítica e reação ao que hoje é conhecido como ''feminismo branco'', movimento feminista que tem como ênfase as experiências das mulheres brancas e burguesas. Por isso que se atribui dentro do movimento feminista a origem do feminismo interseccional à luta das mulheres negras durante a transição da segunda onda do movimento feminista para a terceira (anos finais da década de oitenta e início da década de noventa do século XX), quando elas ganharam mais visibilidade e suas pautas específicas começaram a ser mais impulsionadas nas bandeiras do movimento feminista.

É, contudo, somente a partir dos anos de 1990 que o intersec se desenvolve plenamente como vertente e passa a impulsionar com maior vigor a micropolítica, aqui entendida como as políticas, pautas e ativismos voltados para cada grupo específico de mulheres, pois,  a partir das reivindicações das mulheres negras, ficou-se evidente que a socialização NÃO ocorre de forma igual para todas as mulheres. Mulheres negras são socializadas de modo diferente das brancas, pois não só o machismo as condicionam a serem oprimidas, mas o racismo (e em geral o sistema de classe, pois quem ocupa as posições mais desprivilegiadas na sociedade são as pessoas negras, sobretudo as mulheres). Dessa forma, as mulheres negras têm suas especificidades por causa da opressão racial. 

A mesma lógica de socialização díspar entre brancas e negras foi usada para mulheres héteros, lésbicas, bissexuais... pobres e ricas... Até contemplar em recortes de condição de gênero no que se refere a transgeneridade, para contemplar as mulheres trans tendo em vista que elas SÃO MULHERES e que sua socialização não ocorre de forma semelhante a socialização masculina, pois não há privilégio em pertencer a um grupo marginalizado socialmente só por pertencer e reivindicar um gênero oposto ao do nascimento. Mulheres trans não são socializadas como opressoras, mas como oprimidas. Relatos de meninas trans agredidas, humilhadas, espancadas, expulsas de casa ainda na adolescência para viverem da prostituição é o que não faltam. Se isso não é sofrer violência doméstica e de gênero, EU NÃO SEI O QUE É. 

Portanto, o feminismo interseccional é para todas as mulheres, ele não segrega, ele não exclui, ele contempla todas, sejam cis ou trans, magras ou gordas, brancas, negras, indígenas, entre outras, pobres ou ricas, com ou sem deficiência... É um feminismo que reconhece que as mulheres não estão todas dentro do mesmo sistema de opressão, pois este NÃO É UM SÓ. Eu dei ênfase ao público feminino por esse constituir a origem dos feminismos, todavia um fato interessante dessa vertente feminista é que ela não contempla só as mulheres, mas também homens transexuais e pessoas não binárias (nbs), os quais também têm seus espaços, obviamente específicos, dentro da causa, pela concepção de que há socialmente uma normatização da perspectiva cisgênera de gênero, o que causa não só a transfobia que mulheres trans sofrem, mas também a que esses outros dois grupos enfrentam cotidianamente. 

Lizandra Souza.

Todos podemos falar sobre os direitos das minorias políticas: os limites entre protagonismo e lugar de fala


"Sou homem (cis), posso falar de machismo? Posso defender as mulheres?''  
"Sou branca, posso falar de racismo? Defender as pessoas negras?"
"Sou hétero-cis, posso falar de LGBTfóbia? Defender LGBTs?'' 

Toda vez que tiver dúvida, por receio de estar ''silenciando'' alguém, se você deve ou não falar sobre algo, lembre-se daquela ''perguntinha chave'' da sociolinguística: quem diz o que, a quem, como, quando, onde e com que intensão comunicativa. Silenciamento, "roubo de protagonismo", "lugar de fala", são termos relativos que se constituem dentro da situação de comunicação. Não devem ser usados a torto e a direito como escudo de divergências ou como fala absoluta, única e universal. 

Não defendo a ideia de que somente o oprimido de uma opressão pode falar sobre ela. Não apoio a ideia do "sem vivência, sem opinião" de forma generalizada. É problemático isso ser assumido de forma normativa. Primeiro, nem toda pessoa oprimida tem consciência de problematização da própria opressão, mulheres que reproduzem machismo, negros que reproduzem racismo, LGBTs que reproduzem LGBTfóbia são alguns exemplos desse fato. Segundo, existem pessoas que, por serem privilegiadas em relações sociais de poder, podem ser consideradas opressoras em potencial, em potencial porque apesar de deterem o poder nas relações e, por isso, serem beneficiadas por elas, supostamente buscam desconstrução, como os homens que se dizem "pró-feministas", os brancos que se aliam ao movimento negro, os héteros-cis que alegam apoiar a causa LGBT, entre outros. Essas pessoas não só podem, como devem se posicionar, pois não existe neutralidade: ou você se posiciona ou você sustenta o status quo. 

O que tem que ser pautado é o ''como, quando, onde, para quem e por qual razão'' essas pessoas-privilegiadas falam. Como: de que forma elas se posicionam contra algo que não sofrem. Quando: o momento em que falam. Onde: o lugar ou situação de comunicação. Para quem: quem são os seus interlocutores, para quem elas falam, para alguém que conhece a causa ou para quem tem desconhecimento? Por qual razão: falam para desconstruir alguém ou para impor opinião? Exemplo, machos que dizem apoiar o feminismo, devem falar de feminismo, ou melhor, de machismo, de privilégios masculinos, de atitudes misóginas para com as mulheres NÃO para as feministas, mas para os familiares, sobretudo os masculinos, para os amigos, para os colegas de trabalho, de faculdade etc. Devem falar em espaços que eles já lideram culturalmente com o objetivo de tornar esses espaços empáticos ao feminismo. NÃO devem ficar chorando na internet carteirinha de feminista, nem biscoito. Muito menos desejarem pautar o movimento e decidirem que mulher é "feminista de verdade", aprovada por eles, e que mulher é "feminista de mentira", por não apoiar as babaquices deles.

Lugar de fala não é fala absoluta/única. É com o diálogo, não monólogo, que a gente pode ajudar a conscientizar as pessoas e cada vez mais ir contribuindo para que haja a transformação social. Lugar de fala é sobre visibilidade política a quem estruturalmente sofre com determinada opressão em um espaço determinado pela interação entre os sujeitos do discurso. A visibilidade deve ser dada aos protagonistas da luta, o que não significa que secundariamente os aliados não possam participar e dialogar. 

Por que a visibilidade é política e o espaço é determinado? Porque não basta ter vivência, o discurso também tem que estar condizente com a estrutura social. Nem sempre um indivíduo oprimido terá lugar de fala, apesar de ter vivência, sabem porquê? Porque existem sujeitos alienados pelo sistema, sujeitos dominados pela ideologia dominante, que só enxergam o próprio umbigo. Reformulando um exemplo dado anteriormente, existem mulheres contra o feminismo, negros contra o movimento negro, gays/cis tidos como ''não afeminados" contra os gays afeminados (vice-verso) etc. A voz dessas pessoas não tem legitimidade política nos movimentos de contra-hegemonias já que estas pessoas são cúmplices do opressor. Dessa forma, não basta ter vivência, até porque esta não é universal. Tem que ter bom senso também.

Lizandra Souza.

A necessidade faz uma prostituta


Vi hoje o seguinte relato no meu feed de notícias do facebook. A autora, uma menina ainda menor de idade, fez alguns posts desabafando a situação difícil que está passando com sua mãe, entre esses posts, está o relato que reproduzo* a seguir. O relato dela, apesar de individual, ecoa muitas vozes, vozes das meninas e mulheres pobres, negras, marginalizadas, periféricas, cis ou trans, que para poderem sobreviver, decidem recorrer a prostituição, sistema de exploração da mulher que só é rentável - com poucas exceções - para os cafetões e traficantes de mulheres. 


''Sabe aquela frase "a necessidade faz um ladrão", ela é real pra caralho e a gente só tem noção dessa realidade quando passamos por ela. Eu e minha mãe estávamos comendo arroz e feijão puro, quando acabou o arroz e feijão dividimos mangas que eu roubei do quintal do vizinho, minha mãe se mostrava bem perto de mim mas eu escutava ela chorar quando entrava no quarto. 

Eu tenho amigas na prostituição e elas me convidaram para conhecer um bordel e ver como funcionava, se eu quisesse, ficaria lá. E deixa eu contar, a minha politização foi pra puta que pariu, feminismo não me impediu de cogitar a possibilidade de me prostituir, mesmo eu sabendo de toda problemática da prostituição, eu estava ficando com fome, quase ficando sem luz, sem água e as cobranças só chegando. Pois bem, eu fui, conheci o local, conversei com a cafetina - sim, uma mulher - quando ela me viu, me bajulou de todas as formas, me prometeu roupas novas, maquiagens novas e muito dinheiro, disse pra mim que meninas novas e "morenas" atraem homens de todos os tipos e eles pagam o valor que eu quisesse - claro, a preta é boa pra foda, né? -. Ela dizia que "eu faria muito sucesso", "teria a vida que eu sempre quis", eu falei sobre minha idade e ela disse que isso era o de menos, "temos até meninas de 14 e 15" e isso foi o que me impediu de topar aquilo tudo, eu nunca imaginei que meus traumas com pedofilia fariam algo positivo por mim, e naquele momento eu lembrei que a prostituição é grande aliada da pedofilia, meu estômago embrulhou, e eu percebi a merda que eu ia fazer. 

Até hoje ela me manda mensagem me perguntando se eu vou querer, falando que eu sou muito bonita pra me sujeitar a um salário mínimo. Uma das coisas que eu aprendi com minhas amigas prostitutas e indo conhecer aquele lugar: 

1. Eles te dão drogas, te viciam para te deixar totalmente dependentes para depois conseguir manipular sua vida e te dar menos dinheiro do que o combinado.

2. Quando mais bonita e jovem você for, mais eles investem em você. 

3. De começo, eles te contam maravilhas sobre ser garota de programa, coisa que você só descobre que não é quando já está dentro disso.

4. Se uma menina tenta sair depois, eles fazem pressão psicológica dizendo que vai contar pra toda família e amigos dela. 

5. Eles são manipuladores, usam a sua situação para te incentivar a entrar. E por pouco, muito pouco, eu não me tornei estatística das minas pretas e pobres que entraram nessa vida por causa da situação financeira.''

- Em anônimo para proteger a identidade da autora.

* A autora autorizou a publicação.

Lizandra Souza.