Diários de Uma Feminista. Tecnologia do Blogger.

Glossário de termos usados na militância feminista (atual)



Já participou daquele(s) debate(s) feminista(s) e vez ou outra leu/ouviu uma palavra ou expressão e não soube o significado? E cada vez mais, em debates, você passou a ler/ouvir aquela(s) palavra(s)? E o tempo foi passando e mais termos e expressões foram surgindo? E o pior, você pesquisou no Google o significado e não achou? E as palavras, muitas vezes, não existiam nos dicionários formais? Se você respondeu sim, em pelo menos duas perguntas, aconselho conferir o glossário virtual a seguir, no qual pretendo expor e explicar brevemente alguns dos termos e expressões mais usados no meio do ativismo, em especial o virtual.

Além dos vários termos e expressões que são usados há décadas nos meios feministas, nós temos também muitos termos e expressões usados atualmente na militância feminista que são fenômenos advindos dos estudos contemporâneos de gênero, outros, ainda, são resultantes da própria necessidade de ressignificação que determinadas palavras sofreram para terem determinados efeitos no discurso. A variedade se dá porque os termos e expressões que usamos no ativismo atual não decorrem só dos meios acadêmicos, mas também vindos de contextos não-acadêmicos, tais como páginas e blogs na internet.

Diante disso, muitas palavras ou expressões foram sendo criadas informalmente, isto é, nos próprios meios de interação feminista, não havendo a necessidade acadêmica ou formal, linguisticamente falando, de legitimação da existência dessas palavras ou expressões, as quais muitas delas fogem da ortografia oficial do português, ou, ainda, são palavras estrangeiras que não possuem tradução direta para o português brasileiro, o que dificulta o entendimento delas não só para feministas iniciantes na militância (público-alvo desse post), mas também para muitas que já têm uma história de militância, mas que por conta de contextos específicos, ou de oportunidades, ainda não conhecem tais palavras ou expressões.

Pensando nisso, resolvi fazer um glossário de termos sobre as palavras e expressões que as/es/os seguidoras/es da página Diários de uma feminista mais demostraram ter até a escrita deste post. 

Vamos conferir?

A
Antifeminista: pessoa que faz campanha contra o feminismo, logo contra os direitos das mulheres.
Academicismo: apesar de geralmente esse termo ser associado ao comportamento de quem integra (ou parece integrar) a academia, na militância é também usado para apontar atitudes problemáticas de pessoas que, em debates ou discussões, usam de seus “saberes acadêmicos” (desnecessários na situação em questão) para silenciar outras pessoas ou deslegitimar suas vivências.
ALGBTQPI: assexuais, lésbicas, gays, bissexuais, transexuais/transgênero, queers, pansexuais e intersexuais.
AFAB: assigned female at birth. Em português: (pessoa) designada como mulher no nascimento. Pessoa AFAB é, dessa forma, aquela que quando nasceu foi designada como sendo uma mulher, ou seja, que foi dita como pertencente ao gênero feminino. A sigla AMAN (assinalada mulher ao nascer) surgiu como uma adaptação de AFAB, porém ainda é pouco conhecida e usada.
AMAB: assigned male at birth. Em português: (pessoa) designada como homem no nascimento. Pessoa AMAB é, dessa forma, aquela que quando nasceu foi designada como sendo um homem, ou seja, que foi dita como pertencente ao gênero masculino. A sigla AHAN (assinalada homem ao nascer) surgiu como uma adaptação de AMAB, porém ainda é pouco conhecida e usada.
Anarcomacho: homem/cis anarquista que é machista.
Assexualidade: orientação sexual, na qual a pessoa assexual pode não sentir atração sexual de jeito nenhum, pode sentir atração sexual apenas se tiver vinculo afetivo/emocional ou ainda pode sentir atração sexual de maneira rara ou circunstancial. Vários são os espectros dessa sexualidade, entre os mais comuns encontram-se as pessoas denominadas assexuais, demisexuais, gray-sexuais e assexuais fluidos. Assexual: pessoa que geralmente não sente atração sexual por nenhum gênero. Demisexual: pessoa que só consegue sentir atração sexual depois de formar um vínculo emocional (não necessariamente de natureza romântica) por uma pessoa, seja do mesmo gênero ou do gênero oposto. Gray-Assexual (gray-a) ou gray-sexual: pessoa que se identifica na área entre a assexualidade e a sexualidade. Seja porque sente atração sexual de forma rara, apenas em circunstâncias específicas seja porque só sente atração sexual com baixa intensidade, chegando a ser muitas vezes ignorável. Assexual fluido: a pessoa que tem essa ramificação da assexualidade pode envolver mais de um dos espectros apresentados anteriormente, pois sua experiência com a atração sexual é fluida e circunstancial.
Acefobia: opressão e preconceito contra assexuais.
Androcentrismo: 1. Visão de mundo ou comportamento social no qual se valoriza o ponto de vista masculino. 2. Visão de mundo pautada pelo gosto masculino. 3. Universalização da perspectiva vivencial masculina, da experiência de mundo masculina.
Atração genital: diz respeito a atração que uma pessoa tem por determinado genital. Não confundir com orientação sexual.

B
Bissexualidade: orientação/atração sexual de quem é bissexual. Bissexual: pessoa que se atrai sexualmente por dois gêneros.
Bifobia: opressão e preconceito contra bissexuais.
Bói: escrita propositalmente errada da palavra boy.
Binarismo (de gênero): comportamento social normativo de só se visibilizar e legitimar os gêneros binários: só homem x só mulher.
Broxista: junção de broxa com machista.
Bropriating: designa o comportamento dos homens que roubam as ideias das mulheres, as usam e não dão os créditos. Não possui (ainda) uma tradução/adaptação termo a termo adequada ao significado original.

C
Capacitismo: opressão e preconceito contra pessoas com deficiência.
Cisgênero ou cis: o contrário de pessoa trans, isto é, a pessoa que se identifica com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer.
Cisnormatividade, cisnormativismo ou cisnorma: comportamento social compulsório que normatiza e universaliza a perspectiva cisgênera de gênero, isto é, que valoriza e válida somente a condição de gênero de quem é cis, o que resulta na transfobia e no cissexismo.
Cissexismo: comportamento social que concede determinados privilégios para quem é cis. Por exemplo, pessoas cis não precisam de aval médico ou legal para terem seu gênero reconhecido/legitimado.
Cisgeneridade: perspectiva de gênero de quem é cis.
Cirurgia de redesignação genital ou transgenitalização: 1. É a cirurgia que algumas pessoas trans fazem em seus genitais, para se sentirem melhor com si mesmas. Não é adequado usar o termo “mudança de sexo”, pois isso não existe. Não é a cirurgia que valida o gênero das pessoas trans. Existem pessoas trans que não pretendem fazer cirurgia e nem por isso deixam de ser quem são. 2. Procedimento cirúrgico para que transexuais passem a viver em harmonia com seu genital, que antes lhes trazia extremo desconforto.
Colorismo ou pigmentocracia: recorrente em país que sofreram colonização europeia e em países pós-escravocratas, o colorismo consiste na discriminação orientada na cor da pele da pessoa, a qual quanto mais tiver a pele pigmentada/escura, mais exclusão e discriminação ela irá sofrer.
Classismo: refere-se ao recorte de classes na luta. Uma pessoa classista é uma pessoa que representa sua classe e/ou que defende os direitos dela.

D
Direitomacho: homem/cis machista de direita.

E
Elitismo: comportamento social de se hipervalorizar a elite e as coisas/pessoas/comportamentos/manifestações culturais a ela associadas.
Especismo: ideologia que legitima o comportamento humano de subordinar e explorar os animais (não-humanos), pois estes são concebidos como inferiores aos seres humanos.
Expressão de gênero: a maneira como uma pessoa expressa seu gênero: de forma feminina, masculina, andrógena. Nem sempre a expressão de gênero de uma pessoa equivale a identidade de gênero dela, pois não são, por exemplo, roupas (as quais são consideradas de homem ou de mulher) que definem gênero.
Esquerdomacho: homem/cis de esquerda que diz não ser machista, como se ser da esquerda o isentasse de machismo, diz não ser machista, mas é.

F
Falocentrismo: 1. Visão de mundo que cultua o falo (pênis), logo um dos meios de sustentação dos privilégios e da posição de poder dos homens/cis no sistema de dominação-exploração de gênero. 2. Postura social que considera o homem/cis um ser superior por este ter um falo. 3. Usado para manter a crença machista da superioridade masculina.
Falsa simetria: comparar situações completamente assimétricas, desproporcionais. Por exemplo, o racismo sofrido por uma pessoa negra e o bullying que uma pessoa muito branca pode sofrer em algum momento de sua vida.
Feminismo: movimento social, político e filosófico, o qual, enquanto movimento articulado, teve sua origem no século XIX, com as sufragistas, porém só se estruturou no início do século XX. Originalmente organizado e liderado por mulheres feministas, o feminismo tem como base central a luta contra a opressão de gênero, isto é, contra o patriarcado. Apesar de ser uma palavra geralmente usada no singular, o feminismo deve ser entendido na sua pluralidade, seja de vertentes, seja de pautas ou bandeiras levantadas. Atualmente, com o desenvolvimento dos estudos de gênero, não só as mulheres têm participado da frente feminista, mas também muitos homens transgêneros/transexuais. Homens/cisgêneros que apoiam a luta, como não são protagonistas, são chamados de pró-feministas, ou seja, são aliados da causa.
Femismo: palavra usada para deslegitimar feministas que de alguma forma estão incomodando a ordem patriarcal. Femismo muitas vezes é usado como o contrário de machismo, isto é, como a prática social de opressão de gênero contra os homens, logo é falsa simetria, pois não existe uma estrutura social de dominação feminina, a qual conceda privilégios de gênero às mulheres e oprima os homens só por serem homens. Femismo, assim como misandria, não existem na prática social.
Feminista: pessoa que protagoniza o movimento feminista, isto é, quem sofre com o sistema patriarcal e luta contra ele.
Feministo: homem/cis que se diz feminista, que deseja protagonizar o movimento feminista, liderar pautas (o que invisibiliza as mulheres militantes). Homem/cis que se diz pró-feminista, mas que silencia mulheres feministas.
Feminazi: termo pejorativo usado por pessoas ignorantes que querem difamar as feministas, associando-as com nazistas.
Feminicídio: designa a causa da morte de mulheres que são mortas/assassinadas só por serem mulheres.

G
Gaslighting ou gas-lighting: não possui (ainda) uma tradução/adaptação termo a termo adequada ao significado original. Gaslighting é uma forma de abuso psicológico (ou violência emocional) no qual o abusador omite, distorce ou inventa informações ou dados para fazer a vítima (do abuso psicológico) duvidar de sua própria memória, percepção e sanidade.
Gênero: 1. Categoria identificacional, diz respeito, por exemplo, se você é homem ou mulher. 2. Construção sócio-histórica e cultural que associa gênero designado (ao nascer) a papéis que as pessoas deverão desempenhar em sociedade. 3. Performance, algo que as pessoas desempenham por meio de atos repetidos, socialmente construídos e condicionados.
Gordofobia: opressão e preconceito contra pessoas gordas.

H
Hipergenitalização: ato de reduzir, limitar ou subordinar as pessoas aos seus genitais.
Homem cisgênero ou cis: 1. Pessoa que quando nasceu foi designada como sendo homem (atribuição cisnormativa, por ter um pênis associou-se que seria um homem) e que se identifica com esse gênero, logo tem identidade de gênero masculina. Pessoa que pertence ao gênero que lhe foi atribuído ao nascer.
Homem transgênero/transexual ou trans: pessoa que quando nasceu foi designada como sendo mulher (por ter uma vagina), mas que não se identifica com essa atribuição (cisnormativa), pois sua identidade de gênero é a masculina. Muitas pessoas não-binárias transmasculinas (AFAB) se identificam como homens por questões de visibilidade.
Homossexualidade: orientação/atração sexual voltada às pessoas do mesmo gênero. Homossexual ou gay: homem que se atrai sexualmente pela pessoa do mesmo gênero que ele. Lésbica: mulher que se atrai sexualmente pela pessoa do mesmo gênero que ela.
Homofobia: opressão e preconceito contra homossexuais/gays.
Humanismo: 1. Filosofia moral que coloca os seres humanos como principais, numa escala de importância. 2. Corrente filosófica e acadêmica que valoriza as capacidades intelectuais do ser humano. 3. Filosofia moral criada como uma forma de substituir as religiões que idolatravam um ser superior.

I
Identidade de gênero: expressão ligada a identificação que uma pessoa (cis ou trans) tem com determinado gênero. Diz respeito ao gênero real de qualquer pessoa, independente de sua expressão de gênero.
Iuzomi, mascu, bói, ome, omi e/ou homi: termos escritos propositalmente errados de acordo com a ortografia oficial do português para zoar o homem/cis declaradamente machista, misógino, LGBTfóbico ou com comportamentos problemáticos. É também uma forma de não incluir em determinadas críticas, em posts informais na internet, os homens trans e os homens cis que são machistas em desconstrução ou pró-feministas.
Iuzomismo: termo criado para ironizar comportamentos machistas de homens/cis inconformados com o feminismo ou, ainda, para zoar os chamados “mimimi” dos homens/cis em pages feministas.
Iuzbranquismo: expressão alternativa de “white tears”, ou seja, tem  sentido semelhante, pois é usada para apontar comportamentos racistas vindos de pessoas brancas.

L
Lesbofobia: opressão e preconceito contra lésbicas.
LGBT: lésbicas, gays, bissexuais, transexuais/transgêneros.
LGBT+: lésbicas, gays, bissexuais, transexuais/transgênero entre outros.

M
Machismo: pilar do Patriarcado, é sustentado pela ideia de que o homem/cis é um "ser superior". É através do machismo que o homem/cis ocupa o lugar de poder na opressão de gênero e por isso possui privilégios.
Mansplaining: designa o comportamento do homem que dedica seu tempo para explicar algo óbvio a uma mulher, como se ela não fosse capaz de compreender porque é uma mulher. Apesar de não possuir uma adaptação/tradução direta, as expressões “homem-explicanista”, “homiexplicar” ou “homem-explicador” são usadas, muitas vezes, em português, para definir esse comportamento masculino.
Manterrupting: não possui (ainda) uma tradução/adaptação termo a termo adequada ao significado original. É usado para designar a atitude dos homens que interrompem constantemente a fala das mulheres, não as deixando concluir suas frases, pois acham que o que eles têm a dizer é mais relevante (androcentrismo).
Male tears ou male cis tears: choro (simbólico) masculino. O mesmo que iuzomismo.
Misandria: a misandria, levando-se em consideração a realidade fora de algumas das enciclopédias e dicionários em que essa palavra consta, pode ser considerada como sendo uma crítica sarcástica contra o sistema patriarcal (ou a comportamentos masculinos a ele associados) que privilegia homens/cis só por serem homens/cis.
Misoginia: outro pilar do Patriarcado. Está relacionada  a discriminação e violência contra as mulheres (cis ou trans), porém pessoas que não são mulheres, mas que foram designadas como mulheres ao nascerem (e que, pela leitura social cisnormativa, são lidas como mulheres) também podem sofrer com a misoginia.
Migue: forma neutra ou não binária para a palavra miga (para quem é mulher) e migo (para quem é homem). Cada vez mais a vogal “e” vem substituindo a linguagem neutra usada no meio virtual com o “@” ou “x”, pois ambos não são pronunciáveis enquanto artigos, logo dificultam a compreensão de leitores de tela para pessoas com deficiência visual.
Mulher cisgênero ou cis: 1. Pessoa que quando nasceu foi designada como sendo mulher (atribuição cisnormativa, por ter uma vagina associou-se que seria uma mulher) e que se identifica com esse gênero, logo tem identidade de gênero feminina. Pessoa que pertence ao gênero que lhe foi atribuído ao nascer.
Mulher transgênero/transexual ou trans: 1. Pessoa que quando nasceu foi designada como sendo homem (por ter um pênis), mas que não se identifica com essa atribuição (cisnormativa), pois sua identidade de gênero é a feminina, logo é uma mulher que quando nasceu não teve o verdadeiro gênero designado. 2. Mulher que quando nasceu foi designada como sendo homem, ou seja, mulher que não teve seu verdadeiro gênero designado ao nascer, a qual geralmente busca fazer cirurgia de redesignação genital, por sentir desconforto com sua genital, logo é uma necessidade, ela precisa disso, portanto não é uma “escolha estética”. Existem também mulheres trans que não têm essa necessidade, por não terem “disforia genital”, sendo que isso (a não necessidade da cirurgia) não deslegitima o gênero dessas mulheres. O importante é não ver a cirurgia de redesignação genital como uma escolha banal na vida das mulheres trans operadas ou das que precisam fazer a cirurgia e lutam por isso, pois as mulheres que buscam fazer a redesignação genital, fazem isso por necessidade, para poderem viver em harmonia com seu genital.

O
Opressão: estrutura social desigual, hierárquica ou assimétrica que beneficia determinado grupo (opressor) em detrimento da discriminação-dominação-exploração de outro grupo (oprimido).
Orientação ou condição sexual: está relacionada a atração sexual que uma pessoa tem (ou não) com pessoa(s) de determinado gênero.

P
Pansexualidade: orientação/atração sexual de quem é pansexual. Pansexual: pessoa que se atrai sexualmente por uma pessoa independente do gênero dela.
Panfobia: opressão e preconceito contra pansexuais.
Patriarcado: opressão ou sistema de dominação-exploração das mulheres, cisgêneros ou trangêneros, dos homens trans e de pessoas não binárias, pelos homens/cisgêneros. Apesar de o foco central de opressão patriarcal se voltar contra as mulheres, os homens trans, sobretudo os que não transacionaram ou que não são lidos como homens (por causa da cis-normatividade) e pessoas não binárias também sofrem com esse sistema de opressão. São os principais pilares do patriarcado: o machismo, a misoginia, o androcentrismo e o falocentrismo.
Pessoa não-binária ou NB: pessoa (trans) que não se identifica (ou não se identifica somente) com os gêneros binários: homem x mulher.
Propriedade de fala: refere-se à propriedade ou prioridade de fala que pessoas que sofrem ou vivenciam determinada opressão tem. É usada para dar visibilidade a voz das pessoas oprimidas.

Q
Queer: 1. Teoria pós-moderna de gênero/identidade e sexualidade que desconstrói paradigmas e normatizações heterocisnormativas. Muitas vezes essa palavra também é associada a manifestações de gênero e/ou sexualidade que fogem do padrão social estabelecido que é o hétero/cisgênero.

R
Racismo: 1. Sistema de dominação-exploração racial/étnico legitimado por ideologias, crenças ou teorias que estabelecem hierarquias entre as raças/etnias. 2. Sistema de dominação-exploração da população negra (e não branca/caucasiana) pela população branca/caucasiana. 3. Estrutura social de opressão que legitima a discriminação, preconceito e mesmo o genocídio de populações étnicas consideradas inferiores.
Reveng porn: em português,pornografia de vingança”, é o ato de o homem divulgar gravações/fotos/vídeos íntimos de sua ex-companheira ou dos dois em momentos íntimos, e isto para humilhá-la, para expor a intimidade dela, como uma forma de vingança pelo fim do relacionamento, pois ele sabe que ela sofrerá misoginia e/ou slut-shaming.

S
Sexismo: comportamento e/ou ideias que privilegiam pessoa de determinado gênero em detrimento da pessoa de outro. Como nossa sociedade é de base Patriarcal, em geral, o sexismo é machista: privilegia homens/cis.
Sororidade: 1. Irmandade ou solidariedade feminina. 2. União entre as mulheres (assim como fraternidade é usada como união entre os homens). 3. Tática de militância feminista usada para unir as mulheres contra o patriarcado, desconstruindo a crença machista de que elas devem ser rivais.
Sufragistas (mulheres sufragistas): militantes pelo sufrágio feminino, o qual consistiu em movimentos articulados e liderados por mulheres durante décadas (especialmente no fim do século XIX e início do século XX), em diversos países do mundo, em especial no Reino Unido e nos Estados Unidos (países-base) pela conquista do direito a cidadania política feminina, tendo como foco principal o sufrágio, isto é, o direito das mulheres poderem votar e serem votadas. O sufrágio feminino não deve ser confundido com o sufrágio universal, pois são lutas distintas, a primeira foi pela conquista do poder político para a mulher, justamente porque o sufrágio universal, liderado por homens, não abrangia o direito da mulher de poder votar e ser votada, mas sim a eliminação do voto qualificado por renda, o que foi uma conquista dos homens da classe trabalhadora. 
Slut shaming ou slut-shaming: Comportamento social machista e misógino de tentar fazer uma mulher sentir vergonha de sua conduta/vida sexual. Por exemplo, as palavras puta e vadia são geralmente usadas para tentar envergonhar, inferiorizar, humilhar, limitar e culpabilizar a mulher de vida sexual ativa, que usa de sua liberdade sexual ou, ainda, que expressa sua sexualidade de forma semelhante (ou melhor) que a dos homens.

T
Transgênero ou trans: o contrário de pessoa cis, isto é, pessoa que não se identifica com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer. Por exemplo, mulheres e homens transexuais.
Transgeneridade: perspectiva de gênero de quem é trans.
Travestis: Apesar de as travestis, geralmente, se encaixarem na categoria mulher trans, nem todas elas se consideram mulheres (binárias), algumas são não-binárias (travestis não-binárias), todavia a expressão de gênero delas continua sendo feminina (ou, as vezes, andrógena, mas também com traços femininos acentuados) e a identidade de gênero transfeminina, logo devem ser tratadas no feminino.
Transfobia: opressão (de gênero) contra pessoas trans só por serem trans, consiste, por exemplo, em invalidar, desqualificar, desrespeitar o gênero de uma pessoa trans.
Trans-ally: trans-aliada/o, isto é, pessoa cis que é aliada as causas das pessoas trans, ou seja, que não são trans-excludentes.
TERF: 1. Trans-exclusionary radical feminism. Em português: feminista/feminismo radical trans-excludente, ou seja, feministas radicais que excluem pessoas trans do movimento. 2. Feministas transfóbicas.
Trigger Warning ou TW: em português, “aviso de gatilho”, é um alerta ou aviso que se coloca no começo de um texto para que as pessoas saibam da existência de um conteúdo que possivelmente possa trazer sensações ou lembranças ruins, desagraveis e/ou dolorosas para quem pretende o ler. Exemplo: TW: estupro, indica que o texto irá abordar o estupro, mencionar abuso sexual, relatar cenas de estupro etc.
Token: em português, “prova”, é o comportamento problemático de se apropriar de pessoas ou grupos oprimidos para se justificar um ponto de vista ou para se isentar de ser preconceituoso ou opressor. Exemplo: "Não sou racista, tenho até amigos negros".

W
White Tears: em português, “choro branco”, é uma expressão usada para apontar comportamentos racistas vindos de pessoas brancas. Por exemplo, quando uma pessoa branca tenta silenciar uma pessoa negra, quando ela deslegitima a vivência da pessoa negra ou faz falsa simetria (comparações assimétricas) ocorre o que é chamado de “white tears”.


 NOTAS

1. Eventualmente, poderão ser acrescentados novos termos ou a significação dos inseridos no post podem ser modificados/ajustados.

2. Deixo aqui meu sincero agradecimento as pessoas trans que me ajudaram na escrita/síntese dos termos ou expressões referentes a população trans. Muito obrigada pela revisão.


Lizandra Souza.

Coisas que são ''proibidas'' ou condenadas pela Bíblia, mas que os homofóbicos ignoram e/ou fazem


Vive condenando e/ou discriminando gays e lésbicas usando como argumento "é contrário as leis de Deus", "tá na bíblia", "Levítico blábláblá", mas interessantemente faz coisas CONDENADAS pelo mesmo livro escrito a trocentos séculos atrás...


- fez/faz sexo antes do casamento (Deuteronômio 22:20-21)

- corta o cabelo, faz a barba... (Levítico 19:27)

- tem tatuagem (Levítico 19: 28)

- usa roupa de/com tecidos diferentes/misturados (Levíticos 19:19)

- semeia uma Terra por mais de sete anos (Levíticos 25:04)

- come carne de porco (Levítico 11:07)

- adora astrologia (Levítico 19:31)

- come frutos do mar (Levítico 11:10)

- come frutas de árvores com menos de três anos (Levítico 19:23)

- tem plantas de diferentes especies no jardim (Levítico 19:19)

- tem cão e gato em casa (Levítico 19:19)

- é divorciada/e/o (Marcos 10:7-12)

- ora com brincos de ouro ou roupas caras (1 Timóteo 2:9-12)

- adora comer um churrasco mal passado (Levítico 3:17)


Faz tudo isso (ou muitas dessas coisas) e usa a bíblia logo para discriminar pessoas que se relacionam com outras do mesmo gênero? 

Migo, está faltando você achar a noção, pois o ridículo você já tem.

"Tá na bíblia" não é justificativa para ser homo/lesbofóbico.
Aliás, "tá na bíblia" não é justificativa para se discriminar ninguém.


PS: mencionei gays e lésbicas e não LGBT+s no geral porque no Levítico a referência dada é a respeito da homossexualidade. Porém, muitos dos fundamentalistas que usam desse discurso para serem legitimamente homofóbicos e lesbofóbicos, também acabam sendo LGBT+fóbicos no geral. O que também é um erro. 

Cristofobia no Brasil?



Não sei o porquê de tanto ódio e discriminação contra crentes/cristãos nesse país. Cristofobia existe no Brasil, olhem só a realidade:

1. Crentes/cristãos têm seus direitos civis impedidos, como o casamento civil igualitário de crentes/cristãos com outros crentes/cristãos porque, simplesmente, são crentes/cristãos.

2. Crentes/cristãos apanham na rua simplesmente ao andar de mãos dadas com outros crentes/cristãos.

3. Grupos LGBT+ brasileiros vão a outros países ensinar a outros povos e/ou culturas que ser crente/cristão é algo desprezível e errado, fazendo apologia a discriminação e ódio contra crentes/cristãos nesses lugares, onde, muitas vezes, criam até leis nas quais ser crente/cristão se torna um crime punível com prisão perpétua e morte, o que vai chegar logo aqui no Brasil.

4. Crentes/cristãos são questionados/criticados ao quererem formar uma família com outros crentes/cristãos.

5. Crentes/cristãos, no Brasil, são mortos simplesmente por serem crentes/cristãos.

6. Existem bancadas LGBT+ no Congresso Nacional com o único propósito de destruir os direitos civis dos crentes/cristãos.

7. Inúmeros líderes religiosos não-cristãos estão, em geral, nas maiores igrejas do Brasil e nos maiores canais brasileiros de TV aberta pregando discurso de ódio contra crentes/cristãos.

8. Vários juízes, advogados, médicos, psicólogos e políticos LGBT+ usam de sua posição de poder social para negar direitos básicos aos crentes/cristãos simplesmente porque são crentes/cristãos.

9. Diversas ONGs LGBT+ existem com o propósito de perseguir e difamar crentes/cristãos no Brasil.

Existe cristofobia, ainda mais no Brasil.
Só que não.

Não confunda esteriótipos ou "pré-conceitos" que ALGUMAS pessoas cristãs podem sofrer em decorrência do comportamento fundamentalista da massa cristã (a que mais está visível na sociedade, na mídia...) que prega ódio e discriminação contra LGBTs+ com fobia enquanto opressão estrutural.

Nós, não-héteros e/ou não héteros-cis, sofremos opressão estrutural.
Vocês, cristãos, ainda mais aqui no Brasil, com o Estado que apesar de laico, é extremamente cristão-fundamentalista na prática fora da Constituição Federal vigente, no máximo sofrem um esteriotipozinho a nível de discurso.

Situemo-nos! 

"Sou a favor da vida" - ENTÃO CUIDA DA TUA, PORRA!!!




Sempre que o assunto é legalização do aborto aparece gente dizendo ''Não acho correto o aborto... Hoje existem tantos métodos contraceptivos... blablabla sou a favor da vida...''.

Desde quando aborto precisa ser legalizado para virar método contraceptivo? Do que adianta chorar método contraceptivo quando a pessoa já está grávida e não quer mais estar?

Mandar alguém usar contracepção só é útil quando a pessoa não está grávida. Aliás, sempre lembrando que métodos contraceptivos FALHAM. Logo, aborto precisa ser legalizado porque a prática criminalizada está MATANDO mulheres/cis (e pessoas trans gestantes), sobretudo as pobres que não têm condições nem de pagar por um aborto clandestino, porém seguro, imagina se teriam condições de pagar por uma futura vida. Ricas abortam, vocês querendo ou não. Pobres morrem. A frase já começa errada com "Eu acho". Não ache nada, apenas não faça em VOCÊ.




Ser contra a LEGALIZAÇÃO do aborto NÃO é ser pró-vida, é ser anti-escolha, é ser a favor que mulheres/cis gestantes (e pessoas trans, designadas como mulheres ao nascerem, gestantes) morram em açougues.

É anti-escolha porque acha que a pessoa gestante deve ser forçada a levar até o fim uma gravidez indesejada, isto é, ter um bebê (que só é bebê depois de passar por um PROCESSO de gestação) contra a sua vontade.

É anti-escolha porque acredita que o governo deve ser autorizado a intervir e ditar se alguém pode obter PARA SI PRÓPRIO um procedimento médico seguro/legal ou não.

É anti-escolha porque acredita que as pessoas não devem ter total controle sobre seus próprios corpos.

"E o corpo do bebê?????"

Zigotos, amontoado de células, blastócitos ou embrião (este, em até determinado estágio de desenvolvimento) NÃO são seres sencientes, organismos individualizados, muito menos, bebês.

É ''engraçado'' quando os "pró-vidas" vulgo anti-escolhas dizem a uma mulher/cis (ou a uma pessoa trans designada como sendo mulher ao nascer) que ela está sendo egoísta por querer/fazer um aborto (e matar uma "life") quando eles são os únicos que querem despojar os direitos da pessoa gestante sobre o próprio corpo e forçá-la a estar grávida, PRETERINDO sua vida a um ser NÃO-senciente por causa de suas opiniões e crenças.


Termos mais adequados que você pode usar no lugar do "Pró-vida" com a galera conservadora anti-legalização do aborto:

1. Anti-escolha.
2. Nascimento Pró-forçado.
3. Anti-qualidade-de-vida.
4. Pró-punir as pessoas grávidas.
5. As pessoas que priorizam seres NÃO-sencientes, não autônomos, sobre as pessoas que já vivem.
5. As últimas pessoas que deveriam estar escrevendo leis sobre direitos reprodutivos.




Lizandra Souza.

Da história do adultério ou a história de um modelo de comportamento duplo: mulheres culpadas e homens absolvidos pelos mesmos atos

Belmiro de Almeida - Arrufos, 1887
A história do adultério é a história da duplicidade de um modelo de comportamento social machista, de uma moral dupla, segundo a qual os homens, desde quase todas as sociedades antigas, tinham suas ligações extra-conjugais toleradas, vistas como pecados veniais, sendo assim suas esposas deveriam encará-las como "pecados livres", que mereciam perdão, pois não era o adultério masculino visto como um pecado muito grave (a não ser que a amante fosse uma mulher casada), enquanto as ligações-extraconjugais femininas estavam ligadas a pecados e a delitos graves que mereciam punições, pois elas não só manchavam a honra e reputação da mulher adúltera, mas também expunham ao ridículo e ao desprezível seu marido, o qual tinha a validação de sua masculinidade posta em jogo. 


Alguns exemplos de “castigos” contra aquele que cometesse o adultério nos vales do Tigre e Eufrates incluíam, no caso das mulheres, execução ou ter seu nariz decepado. Outros exemplos encontrados em registros de demais povos eram o açoitamento público, a marcação com ferro quente, o espancamento, a mutilação dos genitais, a decepação das orelhas, a retalhação dos pés, o abandono, a morte por apedrejamento, fogo, afogamento, sufocamento, arma de fogo ou golpes de punhal (Fisher, 1995, p. 89 e 98). Okimura e Norton (1998) registraram casos de mulheres que tiveram as pontas de seus narizes cortados recentemente (vinte e cinco anos atrás, como foi o nprimeiro caso ilustrado pelos autores no artigo), na República do Kiribati, uma ilha localizada na Micronésia, Oceano Pacífico. Algumas delas procuraram cirurgiões plásticos para reconstrução do nariz na Austrália. (...) Nos anos sessenta ainda era comum tal prática, tanto mulheres traídas desfiguravam os narizes das suas rivais, quanto os homens também o faziam com as mulheres que os traíssem, para logo em seguida abandoná-las. O objetivo de cortar o nariz da esposa adúltera era destruir e desfigurar um importante aspecto da atratividade sexual, o seu rosto. (OLIVEIRA, 2007, p. 25).

Na Idade Média, o adultério da esposa era encarado socialmente como tão inaceitável que era punido até com a pena de morte. Já o adultério masculino não era nem visto como adultério, já que ao homem era permitido/liberado ter relações extra-conjugais, logo eles não recebiam punições nem julgamentos morais, pois eram vistos de forma legal e socialmente como seres superiores, ideia legitimada culturalmente. 


De acordo com Socci (1983), a vida sexual no início da Idade Média foi marcada por características grosseiras e cruéis, sob a influência do cristianismo. Nesse período, os nobres sentiam-se no direito de possuir toda e qualquer mulher campesina que se deparasse, sem sentir o mínimo de remorso pelo que estava fazendo. Por conseguinte, a prostituição foi sendo aceita e legalizada sob supervisão municipal em alguns lugares da Europa. Já a Igreja Romana, na Idade Média, exerceu um intenso controle sobre as práticas sexuais. Sua legislação no que se referia ao casamento estava implícita a separação do sexo-prazer com algo positivo e espiritual unido ao sentimento do amor. O sexo só era consentido dentro do casamento e com inúmeras restrições para fins de procriação. (RODRIGUES, 2010, p. 26).

Em algumas civilizações antigas, o adultério poderia resultar em punições legais e/ou morais para ambos os gêneros, porém ainda assim o conceito de adultério era duplo. A mulher era considerada adúltera só em manter relações extra-conjugais com outro homem, logo, segundo a moral vigente, merecia punição. Os homens só eram alvos de punições legais, morais ou severas se a mulher com a qual eles traíram suas esposas fossem casadas, pois nessa situação eles estavam maculando a honra de outro homem, o marido de sua amante, visto como proprietário da esposa, logo o mesmo tinha legalmente ou moralmente o direito de assassinar não só a mulher adúltera, mas também seu amante. Na cultura ocidental o crime de adultério passou a ser punido legalmente com a pena de morte a partir da legislação do imperador Constantino I.. 

Dessa forma, o adultério feminino era visto como inaceitável independente se o homem-amante da mulher adúltera era ou não casado, já o adultério masculino era definido como imoral a partir do momento em que a mulher-amante do adúltero fosse casada, pois nesse caso, a honra e masculinidade de outro homem estava sendo abalada socialmente. 

Fisher coloca que entre 516 a.C. e a destruição de Jerusalém pelos romanos em 70 d.C., os costumes sexuais judaicos passaram a ser cada vez mais identificados com as leis de Deus. Até então, no judaísmo, poucas práticas sexuais eram consideradas imorais. Aos homens, ao contrário das mulheres, era permitido livre acesso às prostitutas, concubinas, viúvas, criadas domésticas, e só lhes era interditado o relacionamento sexual com uma mulher casada, pois os relatos sagrados de Deus diziam para “não cobiçar a mulher do próximo”. (OLIVEIRA, 2007, p. 18).

Em algumas sociedades modernas essa discrepância também se acentuava. Um homem para ser considerado adúltero, tinha que manter financeiramente uma outra mulher, além de sua esposa, ou seja, proporcionar a outra mulher que não sua esposa uma "casa montada", ou seja, o homem não era punido exatamente por ter relações sexuais fora do matrimônio, mas por sustentar outra mulher, sua amante. A mulher era considerada adúltera só em manter relações sexuais com outro homem que não o marido.


Segundo Oliveira (2007, p. 23), esse padrão social duplo do adultério teve sua origem nas culturas camponesas "juntamente com a crença de que o homem era o provedor da família e era também seu dever reproduzir e continuar sua linhagem" (ibidem). Daí a tolerância social em relação as ligações extra-conjugais masculinas e a condenação aos mesmos atos praticados pelas mulheres.

Uma das explicações para essas discrepâncias está no valor dado a castidade feminina numa sociedade (me refiro aqui em especial a Ocidental, tendo em visto que em muitas não-ocidentais até hoje isso se acentua) que legitimou durante séculos o mercado matrimonial patriarcal e patrimonial, no qual a mulher-noiva quando casava saía da tutela paterna para a tutela do marido, passando, portanto, para a sua dependência, logo ela era concebida e tratada como objeto de troca de um homem ao outro. O pai, e depois o marido, eram legalmente responsáveis por ela, que era vista como incapaz, logo era socialmente recomendado, e culturalmente legitimado, que a mulher honrasse e obedecesse a seu pai e a seu marido (DUBY, PERROT, 1993). O controle da sexualidade feminina funcionou para legitimar essa ideia de que a mulher devia honrar seu pai e marido, pois sua castidade estava estritamente ligada a honra deles. Tanto que era esperado que a noiva se mantivesse virgem até a noite de núpcias e que posteriormente fosse fiel ao seu marido, para assegurar a este não só sua honra, mas também sua descendência legítima. 

Diante desse quadro há uma grande contradição, além de machismo, pois esperava-se que as mulheres se mantivessem virgens até o casamento, enquanto os homens poderiam transar a vontade, era indiretamente incentivado que os homens transassem com outros homens, sobretudo os que não tinham condições financeiras de frequentar os "prostíbulos". A contradição reside no fato de que nas sociedades em que o cristianismo ascendia, as relações homoafetivas eram extremamente marginalizadas e condenadas pelas "Leis de Deus".


Uma outra explicação para a existência desse padrão social de comportamento duplo pode ser relacionada a objetificação e hiperssexualização das mulheres, as quais eram consideradas propriedades sexuais dos homens, tanto que legitimava-se (legitima-se?) que elas só poderiam transar com seus maridos, "proprietários", pois seu valor, ligado a expressão de sua sexualidade e comportamento sexual,  diminuiria caso a mulher fosse "usada" por outro homem que não fosse seu "proprietário legítimo", isto é, marido (DUBY, PERROT, 1993).



A primeira vez em que o padrão duplo para o adultério foi registrado na civilização ocidental em códigos legais foi entre 1800 e 1100 a. C., em cidades da antiga Mesopotâmia (vale do Rio Tigre e do Eufrates). As partes desses códigos que se referiam à posição legal e aos direitos e deveres das mulheres diziam que elas tinham que manter sua virtude, da mesma maneira como pensavam os outros povos agrários. Foi a primeira evidência escrita da subjugação da mulher nas sociedades agrícolas da antiga Mesopotâmia, na qual as mulheres eram consideradas bens e propriedades. Esta inferioridade das mulheres com relação aos homens tem relação com o advento do arado na produção de alimentos. Antes, as pessoas utilizavam a enxada e as mulheres realizavam a maior parte do trabalho no campo (Whyte, 1978), mas com o surgimento do arado, em torno de 3000 a. C., que necessitava de uma força muito maior para ser usado, os homens passaram a ficar com a maior parte das tarefas agrícolas. Com a invenção do arado as mulheres perderam seu antigo papel de coletoras e provedoras de alimentos, passando a ser inferiores aos homens. (OLIVEIRA, 2007, p. 23).

Diante disso, a honra masculina e/ou a valiosa masculinidade (fragilíssima) de ouro e bolha de sabão dos homens tornou-se dependente da castidade ou fidelidade feminina, pois o marido enganado não era só alguém cuja virilidade era questionada por ser visto como o macho incapaz de satisfazer sexualmente sua mulher, mas também como alguém que não soube administrar o próprio lar.


Atualmente, mesmo nas sociedades ditas mais avançadas, democratizadas ou menos dogmáticas e conservadoras, essa moral dupla, assim como a mentalidade social machista de conceber, mesmo que de forma camuflada, a mulher como sendo um objeto sexual do homem, sendo sua castidade relacionada a virilidade dele, ainda vigoram, apesar de o sistema de punição legal não mais existir. 


No Brasil, por exemplo, apesar de o adultério não ser criminalizado, assim como em outras sociedades ocidentais,  a moral dupla e machista ainda é culturalmente legitimada a medida que homens que traem suas companheiras têm seus erros amenizados, camuflados ou ainda exaltados com discursos como "é coisa de homem trair", "é coisa de homem não ficar com uma mulher só", "todo homem é infiel", "homem é pegador por natureza", "isso (adultério) é que deixa o homem macho pra caralho" enquanto a mulher que trai o companheiro é vista como "puta", "vadia", "piranha", assim como a amante do homem adúltero é vista, sendo que ambas (a mulher adúltera e/ou a amante) geralmente sofrem agressões físicas e morais, o que geralmente é legitimado e naturalizado socialmente, pois as pessoas acham justo o homem agredir sua esposa porque esta o traiu, pois a masculinidade e honra dele "precisam ser defendidas", ele precisa "limpar sua honra" e ''colar'' sua ''masculinidade quebrada'', e isso se for preciso com o sangue de sua companheira, o que revela a sustentação da mentalidade machista vinculada a tradição moral dupla a respeito de como o adultério era concebido e tratado entre os gêneros desde as sociedades antigas, além do que, para completar esse quadro de violência contra a mulher, geralmente a mulher traída é incentivada a tirar satisfações e a culpabilizar a amante mais que ao próprio marido, sendo que este é que tinha compromisso com ela. 


REFERÊNCIAS

DUBY, G. PERROT, M. História das mulheres: Do Renascimento à Idade Moderna – volume 3. Porto: Afrontamento, 1993.

OLIVEIRA M. E. Orkut: O Impacto da Realidade da Infidelidade Virtual. 2007. 103 p. Dissertação (Mestrado em Psicologia) Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUCRio, Rio de Janeiro, 2007. Disponível em: <http://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/9888/9888_1.PDF>. Acesso em: 21 de DEZ. 2015.


RODRIGUES, M. A. O. Infidelidade online: uma nova modalidade de desestabilização nas relações amorosas. Caruaru: FAVIP, 2010. 80 f. Disponível em: <http://repositorio.favip.edu.br:8080/bitstream/123456789/727/1/TCC-+PDF.pdf>. Acesso em: 21 de DEZ. 2015.




Lizandra Souza.

O que é feminismo?



O que é feminismo? Pelo que o feminismo luta? Feminismo é o contrário de machismo? O que é machismo? Por que a palavra feminismo é tão marginalizada? Quem pode ser feminista? O que é pró-feminista?

Essas são algumas das perguntas mais frequentes que mulheres iniciantes no movimento feminista ou que estão começando a ter contato com o feminismo, me fazem. Para quem já milita há algum tempo, tais perguntas podem parecer "simples", ou mesmo "bobas", mas para quem não teve a oportunidade de conhecer de forma legítima o movimento, as respostas bem elaboradas para elas são essenciais e em muito vão influenciar na escolha e empatia pelo feminismo de quem as fez. Parodiando Simone de Beauvoir, eu costumo dizer que ninguém nasce feminista: torna-se. Ninguém nasce sabendo o que é feminismo: aprende-se o que é feminismo. Pensando nisso, resolvi fazer esse texto, no qual dissertarei sobre essas dúvidas mais frequentes, procurando respondê-las de forma didática.

Antes mesmo de apresentar uma definição de feminismo, me atrevo logo a afirmar: feminismo não é o contrário de machismo. O feminismo liberta as mulheres. O machismo oprime as mulheres. O feminismo salva as mulheres. O machismo mata mulheres todos os dias. O feminismo empodera as mulheres: mostra-lhes que elas são capazes de ter o poder sobre elas mesmas, sobre suas vidas, sobre suas escolhas. O machismo subordina as mulheres ao homem: diz-lhe que elas devem obedecê-los, pois elas são inferiores a eles, não são mulheres-seres humanos, mas mulheres-apêndices-masculinos.



O machismo ou os homens/machistas matam mulheres (só por serem mulheres) todos os dias, em qualquer lugar do mundo. Independente da idade, da raça/etnia, da orientação sexual e da classe social, toda mulher está sujeita a sofrer com o machismo, pois ele é o pilar de um sistema social, culturalmente legitimado, de opressão, que é o patriarcado: sistema de dominação-exploração da mulher pelo homem (SAFFIOTI, 1987, p. 50). Nesse sistema de opressão de gênero, os homens/cisgêneros (pessoas que quando nasceram foram designadas como sendo homens e que se identificam como homens) detém o poder nas relações sociais assimétricas entre os gêneros (isto é, nas relações hierárquicas entre homens e mulheres na sociedade), o que resulta nos privilégios que eles têm em várias esferas da vida social, da vida intra ou extra-doméstica, como por exemplo, pode-se citar o fato de que homens/cis não sofrem discriminação só por serem homens/cis, ou seja, não sofrem discriminação de gênero, homens/cis (héteros) não têm sua vida sexual julgada/fiscalizada, homens/cis não são criados para “servirem suas esposas, cuidar da casa e dos filhos” como forma de encontrar “a felicidade plena ou se realizarem enquanto seres humanos”, homens/cis não ganham menos que mulheres na mesma profissão, com mesma carga horária de trabalho e qualificação profissional etc. Porém, com as mulheres isso acontece.

As mulheres no Brasil, por exemplo, estudam mais que os homens, dedicam mais tempo da vida aos estudos, porém continuam ganhando menos que eles, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2014, realizada pelo IBGE, divulgada em novembro deste ano (2015). A análise aponta que as mulheres são a maioria entre os indivíduos que ganham entre um e dois salários mínimos (entre 788 e 1.576 reais). Na categoria até um salário, elas representam 30,6% da população. Enquanto os homens representam 21,5%. Na faixa de 3 a 5 salários, por exemplo, as mulheres são 6,9% da população, enquanto os homens são 10,5%, sendo que o total, no Brasil, para essa faixa de renda é de 8,9%. De acordo com um relatório do Fórum Econômico Mundial (World Economic Forum, em inglês), as mulheres recebem salários hoje que, em média, equivalem ao que os homens ganhavam em 2006. E estimasse, segundo análise, que levará 118 anos para que essa disparidade salarial tenha fim. 

Nada obstante, a discriminação contra a mulher não se manifesta somente nas imposições de papéis de gênero e no mercado de trabalho. E a violência sofrida não é só simbólica/material/financeira. Somente no Brasil, segundo o Mapa da Violência Contra a Mulher (2015), um estudo, realizado pela Flacso Brasil, aponta um aumento de 21% no número de feminicídios (nome dado a morte/assassinato de mulheres que morrem só por serem mulheres) no país, entre 2003 e 2013, quando 13 mulheres foram mortas por dia no Brasil. Neste mesmo período, os homicídios contra mulheres negras aumentaram  em 54% – passando de 1.864 mulheres negras mortas em 2003, para 2.875 mulheres negras mortas em 2013 – enquanto os homicídios de mulheres brancas diminuíram – de 1.747 mulheres brancas mortas em 2003, para 1.576 mulheres brancas mortas em 2013, o que ainda é um número alarmante, considerando que foram mortas por questões de gênero: por serem mulheres. Isso é resultante da aliança do machismo com outro pilar do patriarcado: a misoginia: ódio, desprezo, discriminação, ao gênero feminino ou a características a ele que são associadas.

A Agência Patrícia Galvão disponibilizou, recentemente, um "Cronômetro da violência no Brasil" (dossiê) que destaca, entre diversos temas, números sobre agressões, estupros, assassinatos e feminicídios, ou seja, aponta para um cronômetro em específico, o qual revela, em dados, as violências sofridas pelas mulheres. Segundo as pesquisas, no Brasil, ocorrem 5 espancamentos de mulheres a cada dois minutos (Fundação Perseu Abramo/2010), 1 estupro (relatado) a cada 11 minutos (9º Anuário da Segurança Pública/2015), 1 feminicídio a cada 90 minutos (Violência contra a Mulher: feminicídios no Brasil/IPEA/2013), 179 relatos de agressão por dia (Balanço Ligue 180 – Central de Atendimento a Mulher/jan-jun-2015), 43 mil mulheres assassinadas (como consequência da discriminação de gênero) em 10 anos, 41% em casa (Mapa da Violência/2012).

DESENHADO

O feminismo ou movimento feminista, diante desse quadro, consiste em movimentos articulados, originalmente liderados/protagonizados por mulheres feministas (contudo, atualmente, com a ampliação dos estudos de gênero, já existem vertentes que acolhem homens trans e pessoas não-binárias com liderança em suas pautas, como, por exemplo, a interseccional), que objetivam livrar a sociedade do machismo, isto é, que buscam uma sociedade em que o gênero não conceda privilégios a indivíduos em detrimento da opressão de outros.


E os homens/cis que procuram desconstruir seu machismo e que desejam apoiar o feminismo, são feministas? Não. Homens/cis que apoiam o feminismo devem ser chamados de pró-feministas. O prefixo "pró" designa o papel do homem/cis na causa: o de apoiar o movimento, não liderá-lo, protagonizá-lo, o que deve ser prioridade de quem sofre com o patriarcado, ou seja, mulheres, homens/trans e pessoas trans não-binárias (apesar de todos estes sofrerem com o patriarcado, o grupo que mais acentuadamente é explorado é o das mulheres, cis ou trans, por isso geralmente dão mais visibilidade a elas). Lugar de fala e protagonismo são importantes porque a voz da mulher já é silenciada na sociedade em geral por causa do androcentrismo, comportamento machista que hiper-valoriza a visão de mundo masculina, logo no feminismo a mulher deve encontrar espaços que deem a ela prioridade de fala e visibilidade.

Apesar de apresentar o feminino como um termo singular, as manifestações dele devem ser entendidas no plural, pois na verdade existem feminismos, vertentes feministas, as quais são lideradas e pautadas de acordo com os interesses principais de cada núcleo feminista. A explicação sobre as vertentes ficará para outro post. Contudo, de modo geral, com raras exceções, as feministas procuram mostrar as mulheres que a forma como elas são/foram ensinadas, desde crianças, a verem o mundo, de modo a reproduzir (e a aceitar como algo “normal”) o machismo, é problemática, as prejudica e não são fatos naturais, mas construídos socialmente, logo podem ser superados, ou seja, desconstruídos. Portanto, o feminismo busca mostrar as mulheres que elas não devem ser submissas, que o lugar delas é onde elas quiserem; que elas nunca terão culpa se sofrerem abuso sexual; que elas não merecem ganhar menos que homens/cis com mesma qualificação, profissão e carga horária de trabalho que eles; que as mulheres não são inimigas/rivais por natureza; que elas não são vaginas/úteros/ ambulantes (e que não é um órgão genital ou aparelho reprodutor que as definem mulheres), que a vida delas não gira em torno de agradar aos homens (androcentrismo); que serviço doméstico não é “coisa de mulher”; que a vida delas, incluindo a forma como elas lidam com sua sexualidade e a expressam, só dizem respeito a elas; que ser mãe deve ser uma escolha, não uma obrigação para cumprir convenções sociais, enfim, o feminismo visa conscientizar as mulheres a verem que opressão de gênero existe, e que precisa ser combatida (o que está sendo). 

Existem, ainda, em vertentes trans-inclusivas, pautas específicas voltadas aos homens transsexuais e pessoas trans não-binárias, considerando-se que  essas pessoas também sofrem com a opressão de gênero e que transfobia (discriminação contra pessoas trans, uma das manifestações da opressão de gênero), cissexismo ou cisnormatividade (comportamento social que normatiza e universaliza a condição cisgênera de gênero em detrimento da deslegitimação da condição transgênera de gênero) e binarismo (comportamento social que só legitima os gêneros binários: só homem x só mulher) são raízes que, além do machismo, misoginia, androcentrismo/falocentrismo, estruturam a opressão de gênero.

O feminismo ainda é muito estigmatizado/rejeitado socialmente porque ele luta pela mudança do status quo social, o que consequentemente altera padrões sociais institucionalizados, como o da dominação masculina, do homem/cisgênero, o qual mantém historicamente o poder na estrutura opressora de gênero. Exatamente por isso, o feminismo ainda é muito “sabotado” pela grande massa, porque quem ocupa o poder no sistema, não quer abrir mão dele (logo também dos seus privilégios), assim discursos como “feminismo é desnecessário”, “feministas querem privilégios/superioridade”, feministas são mulheres “mal comidas”, "feministas são misândricas, odeiam homens" entre outros, são bastante reproduzidos para passarem uma imagem negativa do movimento. Daí a palavra feminismo ou feminista ainda ser tão estigmatizada.


Mulheres são institucionalmente odiadas, por isso feministas são odiadas. Feministas são acusadas de misândricas NÃO porque estão perdendo tempo liderando movimentos para oprimir homens, mas porque fazem parte de movimentos que visam desinstitucionalizar o ódio contra as mulheres na sociedade. Pois sistema de ódio institucionalizado socialmente contra macho só existe nos dicionários (chulas) da vida.


REFERÊNCIAS

SAFFIOTI, H. I. B. O poder do macho. São Paulo: Moderna, 1987. 

http://oglobo.globo.com/economia/mulheres-ganham-hoje-que-homens-ganhavam-em-2006-18087669

http://brasil.elpais.com/brasil/2015/11/13/politica/1447423205_196245.html

http://www.mapadaviolencia.org.br/pdf2015/MapaViolencia_2015_mulheres.pdf

https://catracalivre.com.br/geral/cidadania/indicacao/dossie-divulga-cronometro-da-violencia-contra-as-mulheres-no-brasil/

http://www.agenciapatriciagalvao.org.br/dossie/



Lizandra Souza.