Diários de Uma Feminista. Tecnologia do Blogger.

Movimento que pede fim dos "privilégios" para pessoas com deficiência já pode encontrar a noção, pois o ridículo já tem

Outdoor promovido pelo Movimento Pela Reforma dos Direitos

Dos criadores de "eu não tenho culpa de ter nascido branco", "eu não tenho culpa de ter nascido hétero", "eu não tenho culpa de ter nascido homem/cis", a nova onda é "eu não tenho culpa de não ter nenhuma deficiência", novo lema de um grupo anônimo de, provavelmente, direita reacionária (pleonasmo!) que pede fim dos direitos básicos das pessoas com deficiência.

Sempre que minorias políticas conquistam direitos, antes privilégios da maioria política, elas são acusadas de terem privilégios (que grupos hegemônicos sempre tiveram).

População ALGBT+ conquistando direitos = ''privilégios''.
População negra conquistando direitos = ''privilégios''.
População feminina conquistando direitos = ''privilégios''.

Com as pessoas com deficiência, minorias políticas, estigmatizadas socialmente, também não foi/é diferente.

Um outdoor, promovido por um movimento reacionário e capacitista que pede o fim dos DIREITOS das pessoas com deficiência, Movimento pela Reforma dos Direitos, colocado na Rua Santa Cecília, no bairro Vista Alegre, em Curitiba, mostra que se por um lado os mentores disso precisam encontrar a noção, pois o ridículo já têm, por outro também.

O movimento capacitista em questão possui uma página no facebook, e até ao final da escrita deste post tinha cerca de 200 seguidores. As principais pautas do movimento é negar as pessoas com deficiência direitos básicos os quais lhe possibilitam mais acessibilidade a uma vida social mais justa, tais como "Redução em 50% das vagas exclusivas pra deficientes; fim das cotas para deficientes em empresas; redução em 50% de filas e assentos exclusivos para deficientes; fim da isenção de impostos na compra de carro zero; fim das cotas em concurso público e fim à gratuidade para deficientes.".


Capacitismo consiste, resumidamente, em atitudes preconceituosas, discriminatórias e opressivas decorrentes da noção de que pessoas com deficiência são inferiores/menos humanas que às pessoas que não possuem deficiência. Dizer que os direitos que as pessoas com deficiência possuem são ''privilégios'', e desejar, portanto, retirá-los, é negar a possibilidade de acesso a uma vida social mais justa a essas pessoas. Logo, é uma forma de desumanizá-las.

Capacitismo é crime de ódio!!!


As pessoas que são contra o movimento que estão indo na page do FB para criticar ou xingar os criadores da campanha capacitista

Criticar os mentores do movimento associando eles a possíveis "deficientes mentais", ou seja, a pessoas com deficiência mental, é capacitismo. Pessoas com deficiência mental NÃO têm culpa se pessoas sem deficiência mental são preconceituosas e ignorantes!!!

PS: Pós-publicação. No dia seguinte a escrita deste texto, foram divulgadas notícias informando que o referido movimento é falso e,  na verdade, faz parte de uma campanha promovida pela prefeitura de Curitiba, para levantar discussões a respeito dos direitos das pessoas com deficiência, os quais são desrespeitados inúmeras vezes no dia a dia, e também as dificuldades que essas pessoas enfrentam. 

Por que as mulheres reproduzem machismo?

Me ensinaram a pensar assim... e agora?

Por que as mulheres reproduzem machismo? Quais os mecanismos discursivos de (re)produção e sustentação da ideologia machista? Mulheres podem ser machistas mesmo não se beneficiando do machismo? Reproduzir machismo equivale a ser machista? 

Estas foram algumas perguntas que me fiz há alguns anos quando comecei a ter contato mais íntimo com o movimento feminista ao mesmo tempo em que comecei a me dar conta de discursos machistas que eu reproduzia mais inconscientemente que conscientemente. Porém, somente a cerca de um ano eu comecei a ter respostas mais embasadas, teoricamente falando.

Apesar de saber que nós mulheres reproduzimos machismo porque desde que nascemos nós somos inseridas numa sociedade machista que condiciona nossos pensamentos para que a ideologia machista seja internalizada e aceita por nós, isso nunca me bastou. Não me bastou porque mesmo depois de saber que nós somos ensinadas a reproduzir machismo, mesmo de forma rara, eu continuava a reproduzir machismo. E isso me incomodava bastante porque apesar de ter consciência do que é machismo, por que é que eu continuava, mesmo que menos frequentemente que antes, a reproduzi-lo? Por que isso acontecia? Seria eu uma mulher machista? Foi então que eu percebi que a questão era mais complexa, que machismo não é só prática social, tampouco só ideologia, machismo é o pilar do Patriarcado: sistema de dominação-exploração da mulher pelo homem/cis (SAFFIOTI, 1987).

Estudando sobre sistemas de opressão, eu percebi que em toda opressão há relações assimétricas ou hierárquicas de poder, ou seja, em toda opressão há hegemonias: poder ou domínio que um grupo privilégiado socialmente exerce sobre os demais (minorias políticas/sociais) (CF. RESENDE; RAMALHO, 2006). Diante desse quadro, eu passei a questionar profundamente a assertiva "mulher machista", pois NENHUMA mulher, independente da raça/etnia, classe social, orientação sexual, idade, peso, altura... se beneficia do machismo, logo nenhuma mulher ocupa o lugar de poder nessa opressão. Ficou evidente para mim que reproduzir machismo não equivale a ser machista, mas equivale a sustentar essa opressão. E foi aí que uma frase da Simone de Beauvoir me fez todo sentido "O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos". 

Se você, cara leitora, pensa que eu parei por aí, sinto em dizer que está enganada. Isso ainda não me bastava como explicação, pois como é que uma mulher é cúmplice de algo que a prejudica? Que a inferioriza? Que a subordina aos homens/cis? Seriamos nós, mulheres, trouxas? Pois se nem nós feministas estávamos isentas de reproduzir machismo, mesmo que inconscientemente, quem dirá mulheres que não ouviram a palavra do feminismo? 

Diante disso, eu quis saber quais os mecanismos de reprodução, naturalização e sustentação do machismo e o porquê é tão difícil deixar de reproduzi-lo, de como desconstruir ideais machistas é um processo constante, árduo e longo, porém libertador. 

Para entendermos os mecanismos discursivos de reprodução e sustentação da ideologia machista, é preciso que nós saibamos o que é ideologia e o que é discurso já que estes são conceitos indissociáveis a essa questão. 

Os conceitos de discurso e ideologia que adoto provém da Teoria Social do Discurso, uma abordagem da Análise de Discurso Crítica (ADC), cunhada pelo linguista britânico Norman Fairclough, a qual se baseia em uma percepção da linguagem “como parte irredutível da vida social dialeticamente interconectada a outros elementos sociais” (RESENDE; RAMALHO, 2006, p.11), por isso, nessa abordagem de ADC, o discurso é concebido como prática social, linguagem em uso. A noção de ideologia da ADC provém de estudos do sociólogo John Brookshire Thompson (1995), nos quais o autor apresenta um conceito negativo de ideologia, pois esta, para Thompson, é necessariamente hegemônica na medida em que “serve para estabelecer e sustentar relações de dominação e, por isso, serve para reproduzir a ordem social que favorece indivíduos e grupos dominantes” (RESENDE; RAMALHO, 2006, p.49), ou seja, a ideologia está a serviço dos interesses de determinados grupos hegemônicos. 


Segundo Fairclough, a ideologia é mais efetiva quando sua ação é menos visível, ou seja, quando o indivíduo que a reproduz no discurso faz isso sem perceber conscientemente. A ideologia funciona mais no inconsciente, por isso desconstruir ideologicamente discursos é um modo de revelar relações de dominação-exploração ou fazer com que o indivíduo perceba que reproduz algo que sustenta sua posição de subordinação a um sistema social de opressão. 



A ideologia é mais efetiva quando sua ação é menos visível. Se alguém se torna consciente de que um determinado aspecto do senso comum sustenta desigualdades de poder em detrimento de si próprio, aquele aspecto deixa de ser senso comum e pode perder a potencialidade de sustentar desigualdades de poder, isto é, de funcionar ideologicamente. (FAIRCLOUGH, 1989, p. 85 apud RESENDE; RAMALHO, 2006, p. 22).


O patriarcado enquanto sistema social de dominação-exploração da mulher pelo homem/cis tem sua perpetuação através da reprodução e, consequentemente, sustentação da ideologia machista. Por isso que as mulheres que reproduzem machismo são, nesse sistema, fundamentais para a manutenção dessas relações assimétricas entre os gêneros. O feminismo é marginalizado socialmente justamente porque ele se propõe a ''desvendar'' a ideologia presente nos discursos machistas reproduzidos pelas mulheres, para, dessa forma, fazer com que elas percebam a problemática em reproduzir algo que sustenta sua posição de sujeitamento numa estrutura social que tem como base a hierarquização de gêneros.

Em Ideologia e cultura modernaThompson (1995) considera que há no discurso construções simbólicas ideológicas que funcionam como mecanismos de (re)produção e manutenção das relações sociais de dominação-exploração. Cinco modos gerais de operação da ideologia são elencados por ele: a legitimação, a dissimulação, a unificação, a fragmentação e a reificação. Usarei, portanto, tais modos de operação da ideologia para tentar explicar os mecanismos de (re)produção e sustentação de uma ideologia em específico, a ideologia machista.

Por meio da legitimação, por exemplo, relações de dominação-exploração, ou seja, sistemas de opressão, são estabelecidos e sustentados através do consenso social de que elas são justas e dignas de apoio. Por exemplo, durante séculos a mulher/cis foi vista como apêndice masculino, como sendo um "macho imperfeito" por não ter um pênis (DUBY, PERROT, 1993), diante disso, não só a cultura, mas o discurso médico e científico subordinavam o papel da mulher na sociedade e, por isso, durante séculos, esses discursos eram tidos como legítimos, isto é, não só aceitáveis, mas dignos de apoio social. 

O discurso filosófico também não se isentava de subordinar a situação feminina. Aristóteles, por exemplo, afirmava que “a fêmea é fêmea em virtude de certas faltas de qualidade”. Na Antiguidade Platão dizia que "os homens covardes que foram injustos durante sua vida, serão provavelmente transformados em mulheres quando reencarnarem”. Talvez você diga, "hoje esses discursos não têm sentido de ser... os mesmos efeitos que antes, mas na época eram aplaudidos". Porém, ainda hoje tentam ofender os homens os chamando de ''mulherzinhas''. Mesmo discurso com outra roupagem sim ou claro? 

Uma forma de legitimar o machismo, atualmente e, portanto, fazer com que as mulheres o reproduzam sem perceber que esse discurso não é digno de apoio, é a culpabilização da vítima de estupro. Quando as pessoas dão mais atenção a roupa da mulher que ao ato do agressor elas estão legitimando a ideia de que a mulher é a responsável pela agressão feita pelo homem. 




“Uma Mulher é uma filha, uma Irmã, uma Esposa e uma Mãe, um mero apêndice da Raça Humana” - Richard Steel (séc.XVIII). 

Apesar de essa frase ter sido dita na Idade Moderna, séc. XVIII, até hoje, século XXI, a ideologia machista e misógina por trás dela ainda se faz presente. Isso se dá através da reificação (e também da legitimação, pois um modo de operação da ideologia não necessariamente exclui um outro, apenas por questões didáticas estou explicando separadamente) a qual é outro modo de operação da ideologia que se caracteriza por representar um dado histórico, logo uma construção social, por exemplo, como natural e permanente (logo, imutável). Seja através da naturalização da objetificação dos nossos corpos; de práticas culturais misóginas, seja por meio da naturalização e eternalização da nossa subordinação em frente a um sistema social de dominação masculina, a mulher ainda é definida, em grande parte, a partir da sua relação com (ou para com) o homem/cis.

Discursos machistas e heteronormativos contribuem para a manutenção, eternalização, desse status quo. Quando nos dizem "Uma mulher só se completa com um homem ao seu lado, sempre foi assim", "Toda mulher precisa de um homem para ser feliz", "Você se realizará completamente quando encontrar um bom homem", "Isso é falta de sexo/com homem", "Toda mulher precisa de um homem que a proteja, isso é o natural das coisas", entre outros, o que a pessoa está querendo dizer, mesmo que nem ela se dê conta, é de que você só será um ser humano completo com um homem/cis ao seu lado. A legitimação e reificação desses discursos se dá pela universalização e naturalização de que toda mulher é hétero e de que toda mulher precisa de um homem/cis.

"Uma mulher sem um homem é como um peixe sem uma bicicleta."

Em O Segundo Sexo (1949, p. 72), Simone de Beauvoir diz que "o homem é definido como ser humano e a mulher como fêmea: todas as vezes que ela se conduz como ser humano, afirma-se que ela imita o macho", apontando, assim, para a situação de sub-humana com que a mulher era (era?) tratada.

Tal acusação de imitação do macho ocorre atualmente quando, por exemplo, a mulher se empodera e passa a ter o controle sobre as decisões de sua vida, incluindo em como ela lida com seu corpo, com a expressão de sua sexualidade, de suas aspirações, ambições. Não é à toa que muitas pessoas pensam que feministas são mulheres que querem ser iguais aos homens/cis, e isso por quê? Por que lutamos por nossos direitos reprodutivos? Pela nossa emancipação, empoderamento? Pela equidade social entre os gêneros? Pelo direito de sermos respeitadas não pelo que vestimos, mas pelo que somos: seres humanos? 


Coincidentemente, hoje eu vi um exemplo claro de reificação. Dessa vez, sobre a maternidade compulsória. Foi em uma notícia, sobre uma mulher, britânica, de 29 anos, dando seu depoimento sobre a luta que ela travou para tentar conseguir convencer os médicos da rede pública a fazerem uma laqueadura nela. A resistência dos "profissionais" demostra a eternalização daquele discurso que diz que "Toda mulher quer ser mãe" ou "Uma mulher só se completa quando tem filhos".


Outro exemplo de naturalização e sustentação do machismo na nossa sociedade ocorre através das chamadas "piadas machistas", nas quais situações abusivas, opressoras, são construídas de modo a parecerem "brincadeiras", logo legítimas, e, portanto, aceitáveis. 


A imagem acima é uma reprodução do livro Piadas sobre meninas: para meninos lerem, no qual discursos machistas são naturalizados de modo a fazer com que as meninas sejam humilhadas e os meninos pequenos-futuros grandes misóginos. Por que as mulheres reproduzem machismo? Porque elas são obrigadas a lidarem com ele ainda meninas, crianças.

Outro modo de operação da ideologia é a dissimulação por meio da qual relações de dominação-exploração são sustentadas por meio de sua negação ou ofuscação. No caso da ideologia machista, um discurso que camufla a opressão de gênero é "O feminismo é desnecessário no Brasil, as mulheres já conquistaram o que tinham que conquistar" ou "O machismo só vai acabar quando nós deixarmos de falar dele". De tanto escutarem que "Já conquistaram o que já tinham que conquistar" muitas mulheres criam resistência ao movimento feminista. Aliás, criam até aversão. 


Outra prática social de dissimulação ocorre quando em situações de feminicídio a mídia camufla o agressor, ofuscando o machismo presente no assassinato da mulher.

Quem a matou foi o "whatsapp" ou seu ex-parceiro, homem controlador, que se achava dono de sua vida?

Muitas mulheres reproduzem a ideia de que a mulher foi a culpada pela agressão sofrida justamente porque circula, na sociedade, discursos que legitimam, naturalizam e dissimulam o comportamento masculino abusivo.

Outro modus operandi da ideologia á a unificação, através da qual sistemas de opressão são estabelecidos e sustentados por meio da construção simbólica da unidade. Quando se padroniza a ideia de que "Somos todos iguais" se ofusca as especificidades de determinadas minorias políticas, como no caso das mulheres que precisam lutar para terem seus direitos garantidos não só legalmente, mas também na prática. Outra forma de unificação é dizer que "As mulheres são mais emotivas, os homens mais racionais", pois se padroniza a ideia de que toda mulher usa mais da emoção que da razão, e todo homem é mais racional que emotivo, o que é falho e faz com que as mulheres deixem, por exemplo, de fazer cursos da área das ciências exatas porque "Isso é coisa de homem". Elas reproduzem isso porque a sociedade acredita nisso.

O último modo de operação da ideologia elencado por Thompson é a fragmentação. Na fragmentação sistemas de dominação-exploração são estabelecidos e sustentados por meio da segmentação ou divisão de indivíduos ou grupos oprimidos que, se unidos, poderiam formar uma contra-hegemonia a manutenção do poder pelo grupo dominador e privilegiado. No patriarcado, um exemplo de fragmentação enquanto modo de operação da ideologia machista é o discurso que diz que "Toda mulher é rival". Esse discurso foi-se construindo historicamente como um referencial de comportamento feminino para fazer com que as mulheres internalizem, aprendam, desde cedo, que elas são rivais, e, ainda, que necessitam disputar atenção de homem/cis. No feminismo, a sororidade vem justamente para desconstruir essa ideia através da proposta da irmandade feminina, união das mulheres.

Reiterando o que afirmei anteriormente, expliquei os modos de operação da ideologia de forma isolada por questões didáticas, mas geralmente, em um mesmo discurso, é encontrado duas ou mais formas simbólicas de construção da ideologia. Nesse caso, como o assunto do texto é machismo, a ideologia a que me referi foi a machista. Contudo, por analogia, pode-se concluir de forma geral como a ideologia racista, a ideologia gordofóbica, a ideologia ace/bi/homo/lesbofóbica, a ideologia transfóbica... é construída no discurso, prática social, de modo a sustentar relações de dominação-exploração e fazer com que os indivíduos oprimidos a reproduzam.

Diante desse quadro, vimos que as mulheres reproduzem machismo porque machismo é uma ideologia que nos é internalizada através de construções simbólicas discursivas veiculadas em práticas sociais, vimos que as mulheres reproduzem machismo porque machismo é o pilar do Patriarcado: sistema de opressão de gênero vigente. Mulheres não são machistas porque não ocupam um lugar de poder e privilégios nesse sistema de dominação-exploração, porém mulheres ao reproduzirem machismo contribuem para a manutenção desse sistema, ao fazer com que a ideologia dele seja sustentada. A diferença entre os homens/cis que reproduzem machismo e as mulheres que reproduzem machismo é que só os primeiros podem ser chamados de machistas porque não só reproduzem o machismo, mas dele se beneficiam, pois nessa opressão são eles que ocupam o lugar de poder. Apontar isso não quer dizer que devemos isentar as mulheres de sua parcela de contribuição para a permanência do machismo, mas sim apontar para elas, ou melhor, para nós mesmas, que estamos dando um tiro no nosso próprio pé ao reproduzimos machismo.  


REFERÊNCIAS


BEAUVOIR, S. O Segundo Sexo – a experiência vivida; tradução de Sérgio Millet. 4 ed. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1980a.
______. O Segundo sexo – fatos e mitos; tradução de Sérgio Milliet. 4 ed. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1980b.

DUBY, G. PERROT, M. História das mulheres:  Do Renascimento à Idade Moderna – volume 3. Porto: Afrontamento, 1993.


FAIRCLOUGH, N. Language and Power. New York: Longman, 2003.

RESENDE, V. M.; RAMALHO, V.. Análise de discurso crítica. São Paulo: Contexto, 2006.

SAFFIOTI, H. I. B. O poder do macho. São Paulo: Moderna, 1987.

THOMPSON, J.B. Ideologia e cultura moderna: teoria social crítica na era dos meios de comunicação de massa. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995.


Por Lizandra Souza.

Putas



Dizem-nos

Putas!
Vadias!
Piranhas!
Promíscuas!
Rodadas!
Vulgares!
Quengas!
Piriguetes!
Vagabas!

Para nos envergonhar.
Para nos inferiorizar.
Para nos culpabilizar.
Para nos restringir.
Para nos limitar.

Dizem-nos

Putas!
Vadias!
Piranhas!
Promíscuas!
Rodadas!
Vulgares!
Quengas!
Piriguetes!
Vagabas!

Porque numa sociedade machista
é inadmissível ver mulher
transando 
quando ela quer,
porque ela quer,
com quem ela quer.
Com quantos ela quer, por que não?

Dizem-nos

Putas!
Vadias!
Piranhas!
Promíscuas!
Rodadas!
Vulgares!
Quengas!
Piriguetes!
Vagabas!

Porque fazem de erro,
pecado, dor, abominação,
termos vida sexual igual
ou melhor que a dos homens...

Ah, os homens, 
seres superiores,
parrudos, 
bafejados,
eloquentes, 
sapientes, 
loquazes, 
e majestosos.

Só que não.
Não mesmo.

E dizem-nos

Putas!
Vadias!
Piranhas!
Promíscuas!
Rodadas!
Vulgares!
Quengas!
Piriguetes!
Vagabas!

Por exercemos nossa sexualidade
para nosso prazer,
para nos conhecer,
para nos satisfazer
em detrimento da vontade dos homens.

Ah, os homens fiscais de foda,
 praticantes de slut-shaming,
já disse o que acho deles?

Lizandra Souza.

Quem tem medo de puta? ou Pai, afasta de mim esse slut-shaming



Dizem-nos

Putas!
Vadias!
Piranhas!
Promíscuas!
Rodadas!
Vulgares!
Quengas!
Piriguetes!
Vagabas!

Para nos envergonhar.
Para nos inferiorizar.
Para nos culpabilizar.
Para nos restringir.
Para nos limitar.

Dizem-nos

Putas!
Vadias!
Piranhas!
Promíscuas!
Rodadas!
Vulgares!
Quengas!
Piriguetes!
Vagabas!

Porque numa sociedade machista
é inadmissível ver mulher
transando 
quando ela quer,
porque ela quer,
com quem ela quer.
Com quantos ela quer, por que não?

Dizem-nos

Putas!
Vadias!
Piranhas!
Promíscuas!
Rodadas!
Vulgares!
Quengas!
Piriguetes!
Vagabas!

Porque fazem de erro,
pecado, dor, abominação,
termos vida sexual igual
ou melhor que a dos homens...

Ah, os homens, 
seres superiores,
parrudos, 
bafejados,
eloquentes, 
sapientes, 
loquazes, 
e majestosos.

Só que não.
Não mesmo.

E dizem-nos

Putas!
Vadias!
Piranhas!
Promíscuas!
Rodadas!
Vulgares!
Quengas!
Piriguetes!
Vagabas!

Por exercemos nossa sexualidade
para nosso prazer,
para nos conhecer,
para nos satisfazer
em detrimento da vontade dos homens.

Ah, os homens fiscais de foda,
 praticantes de slut-shaming,
já disse o que acho deles?

Lizandra Souza.

Quem tem medo de puta? O patriarcado tem medo de puta. Da puta assumida que é puta. Da puta que tem consciência do que é ser puta. Da puta que dá porque quer. Dá puta que come quem quer. Já disse que nós é que comemos?

Homens, sobretudo os héteros/cis, têm medo de puta. Já pensou como deve ser frustante ter o aval da sociedade para expressar sua sexualidade de modo que a expressão da mesma venha a dominar a do gênero oposto e em um belo dia encontrar uma puta por aí? Puta que veio mostrar que manda no corpo. Puta que veio mostrar que independe do outro. Do prazer do outro. Do aval do outro. Puta que expressa sua sexualidade de modo a se libertar do outro.

Eles têm medo de puta porque puta que é puta caga e anda para slut-shaming deles. Puta que é puta destrói slut-shaming quando levanta a cabeça, põe o batom vermelho, ou fica sem batom mesmo, usa a roupa que quer, joga o cabelo e diz "Meu corpo, minhas regras".

Muitas mulheres também têm medo das putas. De serem putas. Mas isso não é culpa delas. Desde cedo a sociedade usa de mecanismos misóginos para envergonhar e culpabilizar o comportamento sexual feminino. As mulheres internalizam que é feio, é errado, é sujo, ter liberdade ou expressão sexual. Esse Slut-shaming nos acompanha ao longo de nossas vidas para ir restringindo nossa sexualidade, de modo que a expressão dela só é um pouco tolerável quando ela está a serviço de agradar os machos. Ser mulher no patriarcado é ter a vida, o corpo, as roupas, a cor do batom, o sapato, a transa, o pensamento... policiado. 

Nosso corpo é objetificado e hiperssexualizado. Nosso corpo é visto como mercadoria-masculina porque a sociedade é patriarcal e patrimonial. Logo, usar de nosso corpo para nos agradar é contra-hegemonizar, é subverter a ordem patriarcal na medida em que não estamos a serviço de agradar macho.

O corpo e a sexualidade da mulher se tornam ofensivos quando não estão a serviço do bel prazer masculino. Imagina as seguintes cenas: uma mulher amamentando em público, uma mulher usando roupa curta, uma mulher fazendo topless, uma mulher seminua em um comercial de cerveja sendo objetificada para os homens/cis. Somente uma das cenas não é condenada pela massa social: a da mulher objetificada.

Misoginia, machismo e heteronormatividade definem essa prática que condiciona as mulheres a expressarem sua sexualidade de modo a agradar os homens/cis. A sexualidade masculina (dos homens/cis héteros) é definida e expressa a partir da sua dominação para com a sexualidade feminina. Por isso, mulheres, eles nos limitam. Por isso nos julgam. Por isso nos condenam.

Nos condenam por queremos ser livres. Nos condenam porque nossa liberdade legitima os direitos humanos universais. Por que nossa liberdade deslegitima a ordem patriarcal.

Mas o slut-shaming não se limita a ferir a dignidade da mulher que tem vida sexual ativa. Sabe aquela frase "Uma mulher que transa no primeiro encontro é uma puta, uma puta de uma mulher bem decidida"? Ela é problemática. Ela passa a ideia de que ser decidida, ou seja, de que tomar uma decisão sobre sexo, parte da escolha da mulher transar. Deslegitimando a ideia de que dizer um não também é escolha e deve ser respeita. Não transar porque não quer não faz da mulher uma santa ou uma mulher "não decidida".

Somos putas também quando escolhemos não transar. 
Nosso não também é ofensivo porque nós escolhermos não querer transar também é ofensivo.

Imagine aquele cara legal que levou um não de uma mina.
Aquele cara é homem/cis. ''Como aquela puta pode se negar a ficar com um cara tão legal? É uma puta mesmo. Deve dá para todos, mas agora fica se fazendo de difícil". As mulheres são dividas entre fáceis e difíceis porque custa para o macho bonzão entender que existe mulher com ou sem interesse nele. Que existe mulher que nem de homem gosta. É tão convencido que acha que quando há uma mulher não interessada nele é porque ela é uma puta. Caso não seja puta, ela vai ser a partir do momento em que ele sentir o ego e a masculinidade ferida e começar a fazer boatos do que ele (não) fez com ela. 

A mulher casada também tem seu não deslegitimado. Mesmo nos países em que o estupro conjugal é crime, a sociedade legitima a vontade do homem prevalecer sobre o não da mulher. Afinal, aquela puta é esposa dele, tem obrigações conjugais, não pode negar para o macho... ou ele vai procurar uma puta fora de casa.

As mulheres lésbicas, as assexuais (e as não-heterossexuais, em geral) também são putas. Dizem-nos putas que precisam de homens/cis, ou melhor, da piroca sagrada deles, para sermos ''mulheres de verdade'' porque, pasmem, somos de mentira até transar com um Piroconildo da vida.

Somos putas quando transamos e somos putas também quando não transamos. Somos putas quando nos vestimos de forma considerada sensual/vulgar e dizemos não a um homem. Somos putas quando nos vestimos de forma "contida" e dizemos não a um homem. Somos putas quando desrespeitam nosso não e nos abusam. Somos putas e culpadas. Somos putas de batom vermelho. Somos putas de salto. Somos putas bebendo. Somos putas na balada. Somos putas na igreja por ''nos fazermos de santinhas''. Somos putas se transamos quando nós queremos. Somos putas quando não transamos (''as putas puritanas" dizem os machos). Somos putas quando dizemos não aos nossos chefes/empregadores. Somos putas quando dizemos sim aos nossos chefes/empregadores. Somos putas quando engravidamos antes de nos casarmos. Somos putas se o pai da criança não assume a paternidade. Somos putas se abortamos. Somos putas se tivermos o bebê. Somos putas toda vez que escolhemos ser o que somos. Somos putas também todas as vezes que nossas escolhas ferem o patriarcado.

Sobre ser puta: amo/sou.


Lizandra Souza.