Diários de Uma Feminista. Tecnologia do Blogger.

Sobre pornografia de vingança e violência de gênero



Temos um casal, mais especificamente, hétero.
Os dois decidem tirar fotos íntimas e/ou gravarem um vídeo íntimo.
Chega um dia e esse casal, por qualquer circunstância da vida, se separa. Então, o homem/cis canalha decide agredir sua ex-companheira publicando na internet - sem o consentimento dessa - um vídeo feito em um momento íntimo de quando eles eram um casal. Levando em consideração que nossa sociedade é regida por uma cultura patriarcal sexista machista e misógina que privilegia homens/cis, a mulher em questão é exposta e passa a sofrer preconceito e agressões (psicológicas, verbais/morais...) por uma grande parte da sociedade. Além se ser exposta a mulher ainda tem que aguentar a repressão do povão fiscalizador de foda. É triste.

A sociedade pune cruelmente a mulher que confiou em seu ex/parceiro por ELE expô-la na internet e agredi-la - no mínimo psicologicamente. E tudo isso porque ela, mulher, CONFIOU nele e aceitou fazer um vídeo do ato sexual deles. Um momento íntimo deles, só deles.

Se eu ou você faríamos ou não um vídeo íntimo não é a questão tratada AQUI (devemos sim problematizar o ato e o perigo de se fazer vídeos íntimos para outrem, contudo, há a situação/momento). O que estou discutindo aqui é o fato de as pessoas - uma grande massa - usarem de slut-shaming para reprimir e culpar a mulher que teve vídeo ou foto íntima divulgada sem consentimento e ainda é JULGADA pelos seus comportamentos sexuais, sendo que NADA justifica culpabilizar a vítima. NADA. 

Para essa sociedade hipócrita não importa se a mulher sabia ou não dos riscos de se confiar em um homem ao gravar um vídeo íntimo. Para essa sociedade o que importa é fazer com que a mulher se sinta culpada devido a prática de seu comportamento sexual.


E olha que estou me referindo no caso específico de quando a mulher sabe que seu parceiro está gravando o ato sexual. Muitas não sabem. A sociedade - maioria - não quer saber se houve ou não conhecimento por parte da vítima. O que a sociedade quer é punir a mulher.

Basta de pornografia de vingança!

Lizandra Souza.

Vamos falar de misandria?



O que é misandria?
É ódio aos homens/cis?
Misandria mata?
Misandria é opressão de gênero?
NÃO.
N-Ã-O.

"Mas eu vi na wikipédia que misandria é o ódio, preconceito ou desprezo aozomimimi...''


Superando as male cis tears, vamos responder as perguntas com as quais eu introduzi esse post?

Opressão só é opressão porque tem um sistema de dominação-exploração institucionalizado socialmente mantido por relações assimétricas de poder.
É o poder mantido historicamente por homens/cis que rege a nossa cultura patriarcal (sexista machista e misógina) que oprime mulheres (cis ou trans) e pessoas trans em geral (vamos nos lembrar que transfobia também é uma opressão de gênero, a qual é perpetuada através da cis-normatividade social).

Mas sempre terá aquele homem/cis que dirá que misandria "pode até não ser opressão - enquanto sistema - mas é prejudicial aos homens/cis”. 

Muito prejudicial. 

Sabiam que homens/cis sofrem muito quando nós o inserimos como sujeito numa frase tipicamente machista? Olhem a agressividade nessa frase: "ELE vai sair com essa roupa e ainda reclama quando é estuprado...? vadio...". 
Frases como essa (com o sujeito no feminino) são usadas para MANTER o status quo social que culpa a mulher pela violência sofrida, ou seja, o discurso funciona de modo a perpetuar aquela ideia de que a mulher - vítima - foi a culpada da violência FEITA pelo homem/cis. Porém, é muita sofrência para os homens/cis nós feministas misândricas usarmos esse tipo de sarcasmo e contradiscurso para evidenciar a problematicidade desse discurso voltado para nós. Exato, misandria não passa de sarcasmo/ironia e contradiscurso. E qual o objetivo de nós usarmos esses mecanismos discursivos? Chamar a atenção para discursos que são voltados a discriminar ou oprimir mulheres, justamente para negá-los.  

A misandria, levando-se em consideração a realidade fora das enciclopédias e dicionários, pode ser considerada como sendo:

( ) um sistema de opressão que prega o ódio, preconceito ou desprezo a pessoas do gênero masculino.

(x) crítica sarcástica contra o sistema patriarcal sexista machista e misógino (ou a comportamentos masculinos a ele associados) que privilegia homens feat cisgêneros só por serem homens/cis.

Exemplo de misandria: escrever a palavra homem errada de acordo com a ortografia oficial do português brasileiro: ome. OME OME OME OME. Quantos homens/cis foram espancados, estuprados, humilhados, inferiorizados por isso?

Está aqui a quantidade exata: 0.


Em resumo, na história da humanidade você não tem registro de um sistema de DOMINAÇÃO-EXPLORAÇÃO do homem pela mulher, simplesmente por questões de gênero. 
Você não encontra fatos que mostrem assimetrias de gênero que beneficiem mulheres e deixem os machos em desvantagem social. Você não tem estatísticas de fatos estruturais de homens sendo estuprados, assassinados, mutilados, espancados, humilhados, subjugados, subordinados, reprimidos e oprimidos por mulheres só pelo fato de haver uma ideologia de ódio institucionalizada socialmente que legitima e naturaliza práticas de violência de GÊNERO contra os pobres omis oprimidos por mulheres misândricas criadas na mentalidade senso comum de vocês.

OBS.: podem existir feministas misândricas que realmente ODEIAM homens/cis, MAS isso não é regra, aliás, não sabemos o que aconteceu para elas sentirem isso.




Outros exemplos da famigerada MISANDRIA 





Lizandra Souza.

"Ter opinião não é crime"... Será?




“Ter opinião não é crime”
"Mas é só a mimimi-minha opinião"

 E se o que você diz através da expressão da sua opinião fere os direitos humanos?
 Sua liberdade de expressão pode te salvar de crimes de ódio ou de discriminação?

 Não.
 N-Ã-O.

 Liberdade de expressão (e de opinião), no Brasil, não isenta o indivíduo de responder por crime de ódio, não isenta a pessoa de ser criticada por aquilo que faz apologia, não isenta a pessoa das responsabilidades legais sobre aquilo que diz e que faz (mesmo que a pessoa alegue “desconhecer” a lei - art. 3º do Decreto-Lei 4.657/42.).
 Segundo a Constituição Federal (art. 5º) “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”. No inciso XLI, do mesmo artigo, há o seguinte: “a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais”. Logo, concluímos que a sua liberdade de opinião/expressão “termina” quando você usa dela para negar os direitos de outras pessoas ou ainda restringir suas liberdades fundamentais.
 Assim sendo, sua opinião não será crime se ela não ferir a dignidade humana, se ela não discriminar e negar direitos humanos fundamentais de outrem. Afinal, “A essência dos Direitos Humanos é o direito a ter direitos”, Hannah Arendt.

Precisamos falar sobre a descriminalização/legalização do aborto


É contra a legalização/descriminalização do aborto porque é ''pró-vida'', MAS ignora as mulheres/cis (e as pessoas trans designadas como sendo mulheres quando nasceram) mortas em decorrência de abortos clandestinos e as condições em que a FUTURA criança nascerá e será criada.



Pró-vida ou nascimento pró-forçado?

A única coisa que importa é impedir que a pessoa gestante tenha o direito a escolha e a um amparo médico legal e seguro caso decida não ser mãe (ou pai, no caso dos homens trans). O que está em questão não é a vida que nascerá, mas somente o controle sobre o corpo da mulher (ou pessoa gestante) a respeito da concepção e da gestação do feto, o qual, depois de nascido, se pertencer a minorias/classes sociais estigmatizadas deve se "virar" pra ser um cidadão "de bem", caso contrário é ''tiro, porra e bomba'', merece "pena de morte".



''Mas e a escolha do homem/cis? E se ele quiser ser pai?''.

E falsa simetria?

''Aborto'', ou melhor, e na verdade sem comparação, ABANDONO paterno, feito pelo homem/cis é legalizado/descriminalizado/institucionalizado/seguro, por exemplo, tem muito homem/cis por aí que engravida a mulher e diz "se vira, o problema é seu". Resultado: Brasil tem 5,5 milhões de crianças* sem nome do pai em registro de nascimento. O ''aborto'' do homem/cis é configurado pelo abandono, o que é muito pior se levarmos em conta que ele abandona uma vida (vulnerável) já nascida. Homens/cis não morrem ao decidirem que não serão pais. A paternidade não é obrigatória. Por que deverão os homens/cis terem então o controle sobre o corpo das mulheres? 



Homens/cis, abandonam seus filhos, recusam sua paternidade, todos os dias, porém a escolha deles de não serem pais é legalizada. Eles não morrem ao ''abortar'', simbolicamente falando. Eles não têm riscos de ficarem estéreis. Eles não precisam ''abortar'' clandestinamente. Eles são homens/cis. A sociedade dá pontos por isso.


Já o aborto feito pelas mulheres/cis (ou por homens trans ou por pessoas não binárias designadas como sendo mulheres ao nascerem) é criminalizado/ilegal/inseguro, resultando em 1 milhão de abortos** clandestinos e 250 mil internações** por complicações por ano, o que torna o aborto clandestino a quinta causa de morte materna no Brasil.



Muitas mulheres/cis (e pessoas trans designadas como sendo mulheres ao nascerem) POBRES*** morrem em ~~açougues~~ ao fazerem abortos clandestinos e inseguros (nem todo aborto clandestino é inseguro, logo gestantes pobres têm chances dobradas de morrerem em clínicas clandestinas/inseguras) em ambientes precários porque não têm dinheiro para pagar por um procedimento ilegal, contudo seguro, que não coloque em risco sua vida e/ou saúde, e ainda tem gente que acha que elas deviam/poderiam ''pagar'' por uma FUTURA vida.

Legalização do aborto não é só uma questão de gênero, mas também de classe e raça (mulheres brancas ou negras estão mais "vulneráveis" socioeconomicamente?) e de saúde pública.

É importante lembrar que ser a favor da DESCRIMINALIZAÇÃO/LEGALIZAÇÃO do aborto não é o mesmo que ser a favor de usar o aborto como um método contraceptivo ou incentivar as mulheres a abortar. Até porque o aborto não é uma contracepção, mas uma solução para a pessoa gestante que não quer ter um filho.

A criminalização do aborto (aborto ilegal/inseguro) NÃO REDUZ o número de abortos.

A descriminalização**** do aborto não reduz e nem aumenta, consideravelmente, o número de abortos, mas REDUZ o número de mulheres/cis (e de pessoas trans gestantes) mortas em consequência de terem tentado fazer um aborto ilegal e inseguro.

Qual prática (a criminalizada ou a descriminalizada/legalizada) salva mais vidas?

A maternidade só é plenamente humana quando resulta de uma escolha consciente e não de uma imposição social e/ou fatalidade biológica.


*http://www.crianca.df.gov.br/noticias/item/2332-brasil-tem-55-milh%C3%B5es-de-crian%C3%A7as-sem-pai-no-registro.html

**https://catracalivre.com.br/geral/cidadania/indicacao/5-coisas-que-voce-precisa-saber-sobre-aborto/

***http://noticias.terra.com.br/brasil/com-1-milhao-de-abortos-por-ano-mulheres-pobres-ficam-a-margem-da-lei,0401571f0cd21410VgnVCM5000009ccceb0aRCRD.html

****Nesse caso, do link, após a legalização do aborto, houve até uma diminuição no número de abortos: http://noticias.terra.com.br/brasil/com-1-milhao-de-abortos-por-ano-mulheres-pobres-ficam-a-margem-da-lei,0401571f0cd21410VgnVCM5000009ccceb0aRCRD.html

Lizandra Souza.