Diários de Uma Feminista. Tecnologia do Blogger.

Estágios gerais da violência simbólica, verbal e psicológica contra a mulher



A violência contra a mulher não se constitui apenas da agressão física e/ou sexual, ela não se configura somente nos estupros, assassinatos e espancamentos, mas também existe em nível simbólico, psicológico e verbal/linguístico/discursivo. 

O patriarcado exige de nós passividade, docilidade, abnegação e sujeição. Pois todos esses "atributos" fazem com que nós não possamos reagir com força total contra o domínio que os machos exercem sobre nós, sobre nossos corpos, sobre nossas vidas, sobre nossas vontades! Aí reside o silenciamento feminino. 

O que é o silenciamento feminino? É justamente tirar a voz da mulher, é invisibilizar seu discurso, é lhe negar o direito ao grito. Mulher não pode falar palavrão, porque palavrão em boca de mulher é feio. Mas macho pode demonstrar insatisfação ou raiva e praguejar a vontade! Mulher que grita é histérica, falta rola para ela, mas macho gritando é sinal de virilidade, masculinidade, macheza! Machos brabos! Durões! Mulher irônica, sarcástica ou debochada é louca, exagerada. Macho que usa de ironia é um fiel seguir machadiano, intelectualizado. 

A expressão linguística sexista dos machos e, infelizmente, de muitas mulheres, reforça esse patrulhamento e censura verbal-discursiva da fala da mulher. É visto como um ato normal um macho interromper a fala de uma mulher, se apropriar da ideia dela ou distorcer sua fala, tudo para fazê-la perder o equilíbrio mental e passar por louca e/ou exagerada quando ela decidir refutá-lo ou cagar para a tentativa de silenciamento dele. 

Quando a mulher toma consciência dessa patrulha e censura verbal-discursiva e decide romper esse sistema linguístico que privilegia os machos, ela é chamada de louca, exagerada, histérica, inculta e até de mulher-macho. Porque exigir poder usar a voz como os machos usam é querer ser iguais a eles. Eu mesma não quero ser igual a macho não. Credo!

Abaixo, alguns estágios gerais da violência simbólica, verbal e psicológica contra a mulher:

1. Silenciamento: a mulher fala, mas não é ouvida ou sua opinião é desconsiderada somente por ela ser mulher. A deslegitimação do discurso ocorre não por o que está sendo falado, mas por quem o fala. 

2. Distorção: a mulher tenta falar. Insiste na sua perspectiva e tem seu discurso distorcido para que ele não seja aceito/compreendido pelos demais e ela passe a duvidar de si mesma. 

3. Arquétipo da louca, histérica, frustrada e exagerada: a mulher não aceita o silenciamento e a distorção do seu discurso e posicionamento, então bate de frente com seus agressores linguísticos, levanta a voz, tem pulso firme e insiste na sua opinião, então é chamada de louca, exagerada... 

4. Culpabilização: de tanto silenciamento, distorção e manipulação psicológica a mulher passa a refletir se realmente está sendo ou foi exagerada e passa a se culpar por não ter se calado ou aceitado a outra visão de mundo, geralmente a do macho ou a que o privilegia e mantem as relações de dominação das quais ele tem o poder sobre ela. 

Finais alternativos (ou complementares): 

5. Aceitação: cansada de tanto silenciamento, manipulação e agressão verbal a mulher mesmo que não concorde com o discurso do outro tende a fingir que o aceita e/ou reconhece sua (suposta) atitude exagerada, louca, histérica... somente para ser deixada em paz. DEIXADA!!! Pois ficar em paz são outros quinhentos. 

5. Não aceitação: a mulher sabe que não é oceano pra ser pacífica e quebra o pau (quem dera literalmente) e mesmo com toda agressão verbal e psicológica sabe que já ficou calada tempo demais e que agora, a hora, não é de esperar, sentar e deixar acontecer, mas de fazer. Ela não é deixada em paz, mas, talvez, tenha paz consigo mesma.

Lizandra Souza.

''15 tipos de mulheres que mais desagradam os homens''


Meninas, esqueçam essas listinhas que dizem que homem ''não gosta de mulher com batom vermelho'', ''muita maquiagem'', ''roupa x ou y'', ''cabelo curto''... pois o que eles, geralmente, detestam mesmo é ver: 

1. Mulheres empoderadas. 


2. Mulheres inteligentes. 


3. Mulheres empregadas, sobretudo em cargos de prestígio social. 



4. Mulheres que se impõem, de personalidade forte... 


5. Mulheres decididas.


6. Mulheres com vida sexual melhor que a deles. 


7. Mulheres que não se resumem a agradá-los.


8. Mulheres que se amam em primeiro lugar para, depois, amarem os outros. 


9. Mulheres psicologicamente/emocionalmente estáveis. 


10. Mulheres ''desbocadas'' que não se deixam silenciar.


11. Mulheres que se vestem, se maquiam, usam o cabelo... como bem querem.


12. Mulheres seguras de suas escolhas, do poder sobre si mesmas.


13. Mulheres imperativas, poderosas.


14. Mulheres que não seguem padrões sociais de feminilidade ou esteriótipos de gênero.



15. Mulheres feministas, isto é, mulheres que lutam por mulheres.




Lizandra Souza.

Machismo na universidade: até quando esperarão de nós passividade e silêncio?

Eu e minha cara de ATA, anotado, macho!
Toda vez que eu me sentir deprimida, eu vou lembrar que eu ''fiz'' um macho se ajoelhar na minha frente, em um auditório lotado, no dia internacional da mulher, em uma roda de conversa sobre Empoderamento Feminino na universidade (em um campus da UECE), porque ele estava se sentindo oprimido com meus ''deboches'' com os machos só porque eu usei o termo macho em pleno Sertão Central do Ceará, onde há arraigadamente a cultura do ''cabra macho'', onde até mulher é chamada de macho porque macho virou ''forma de tratamento'' por ser tão endeusado pelo culto ao falo/falocentrismo. 

Na verdade, o macho deu seu show de machismo e misoginia não porque estava, simplesmente, incomodado com o uso do termo macho. Ele não se sentiu mal por eu falar o termo macho, mas por eu falar DE MACHO, DE MACHOS ESCROTOS, que assassinam, estupram, espancam, humilham, inferiorizam, censuram, reprimem mulheres todos os dias. Ele se sentiu mal, como uma colega falou, porque quem estava com o microfone na mão tendo voz era uma mulher, não ele. Porque ele está acostumado a ser ouvido e endeusado por ser macho e do nada, num espaço historicamente ocupado por machos, ele se depara com uma mulher levantando a voz a favor do empoderamento feminino e pelo fim da violência que MACHOS praticam contra mulheres. 

O macho foi mal educado, foi agressivo, levantou a voz para mim, já que não era seu lugar e momento de fala, já que não tinha microfone, interrompeu meu discurso de forma petulantemente masculosa, se achando o roludão do role, para reclamar do meu discurso. DO DISCURSO DE UMA MULHER NO LUGAR DE FALA DELA! Eu revidei, é claro, e agora apareceu gente falando que houve exagero de ambas as partes. Porque esperam de nós, mulheres, docilidade, subserviência e silêncio. Porque esperam sempre que nós baixemos nossas cabeças diante do exercício do poder do macho. Reação do oprimido jamais deve ser comparada com a violência do agressor! 

E assim, ontem, eu sofri violência por SER mulher. Ontem, no dia internacional da mulher, na roda de conversa sobre o Empoderamento Feminino que eu estava MEDIANDO junto com outras colegas de coletivo, um macho se deu o direito de interromper minha fala e tentar me coagir, constranger e silenciar publicamente. Ele usou do poder do macho para me coagir. DO PODER DA PALAVRA MASCULINA! Ele jamais faria isso se eu fosse um macho. Tanto que, quando um professor (maravilhoso sim!) levantou a voz e a expressão corporal e o rachou por sua atitude machista, ele ficou CALADO, não deu um pio. Quando colegas homens também criticaram-no pela atitude misógina e machista, ele também não os respondeu, só procurou falar com as mulheres minhas colegas ali presentes (e, ainda, com uma professora diva-maravilhosa-master) que demonstraram apoio pela atitude violenta dele. 

Violenta sim! Imaginem só, você, mulher, no ''seu dia", prepara com suas amigas rodas de conversas, prepara um discurso bacana para falar e é interrompida grosseiramente por um macho que, para lhe INTIMIDAR, trabalhou todo um showzinho vitimista se ajoelhando no chão POR NÃO TER TIDO VOZ legítima numa conversa sobre empoderamento FEMININO num local cheio de mulheres querendo falar sobre si mesmas. Você, mulher, no único dia no ano em que é lhe cedido vez e voz, é interrompida por um macho exaltado na tentativa de lhe constranger, silenciar, deslegitimar publicamente. O mesmo macho com quem você discutiu pela manhã por não aceitar a romantização dele da cultura do estupro ao legitimar que o NÃO da mulher pode querer dizer SIM por isso os machos devem insistir na "conquista". 

Ontem, por ser mulher e feminista, por ser uma mulher QUE FALA PRA CARALHO AS VERDADES QUE OS MACHOS NÃO QUEREM OUVIR, eu poderia ter sido silenciada num debate que envolvia minha VIVÊNCIA DE MUNDO SE eu não soubesse do meu DIREITO ao grito e por isso eu gritei: MACHO MACHO MACHO MACHO MACHO MACHO MACHO na cara dele até o macho se machonar mais. Agradeço ao auditório que me acompanhou e fez o coro gritando macho macho macho também! FOI LINDO! E continuarei falando: macho macho macho macho! E no sarau de sexta eu vou declamar macho macho macho macho:

macho masculino
macho masculoso
não aguenta 
ver mulher falando
tendo voz
que já fica lacrimoso.

Depois de publicar esse caso no meu perfil no Facebook, algumas meninas me procuraram para falar que já passaram por situações semelhantes dentro da universidade. 

O âmbito acadêmico é muito machista e misógino. Isso precisa ser mudado! E, para que essa mudança ocorra, nós mulheres precisamos levantar nossa voz e nossas cabeças, precisamos ter pulso firme e mostrarmos que aquele espaço também nos pertence! Assim como também deve pertencer aos negros, aos gays, as lésbicas, as bissexuais... as transsexuais e travestis, aos pobres, entre outras minorias políticas. Não temos apenas que ocupar esses espaços enquanto estudantes, temos também que levantar nossa voz e vivência neles. E não deixar de falar porque nossa voz incomoda e como incomoda! 

Machos estudantes de medicina fazendo apologia explícita ao estupro: brincadeira dos formandos, piada da turma, vão se especializar em ginecologia, feminazis exageradas. Mulheres estudantes universitárias sendo abusadas em trotes misóginos: brincadeira, relevem, feminazis exageradas. Mulheres estudantes universitárias sendo estupradas em festas de calouradas: ninguém as mandou beber, agora assumam as consequências suas feminazis exageradas. Mulheres pintam muros das universidades com denúncias, gritam nos auditórios pela revolta contra a misoginia, falam uns palavrões pra chamar atenção e nossa... exagero! Exagero para quem não pertence a um gênero historicamente silenciado e exigido subserviência e docilidade inatas.

A voz das mulheres incomoda muita gente! A voz das mulheres negras, lésbicas, trans, incomodam muito mais. Ontem, um macho saiu do auditório após nos chamar de ''mal amadas'' e, ainda, de chamar uma colega de ''sapatão'' porque ela, assim como outras mulheres ali presentes, levantou a voz pelo episódio ocorrido. Episódio que tomou grande parte do tempo da temática da discussão, que era empoderamento feminino. Dois machos tentaram sabotar nossa noite, nosso propósito inicial, conseguiram mudar o rumo da nossa conversa, mas não conseguiram calar a nossa voz! E a nossa sororidade! E a nossa luta! 

Nós mulheres não vamos nos calar! Vamos ocupar nossos espaços e vamos levantar nossa voz. Vai ter mulher empoderada, feminista na universidade sim! Vai ter mulher negra, indígena... lésbica, assexual, bissexual... transsexual... pobre... na universidade sim! LIDEM COM ISSO QUE A GENTE CHEGOU É PARA FICAR! E AFRONTAR!


Lizandra Souza.

Lugar de homem no feminismo é...


Já se questionaram do porquê de tantos homens cisgêneros (doravante homens) ficarem na internet chorando para usarem o título de feministas? Já se perguntaram do motivo de tanto alvoroço e male tears por conta de uma carteirinha? Já analisaram o fato de que eles recusam piamente o termo pró-feministas, porque querem ser, a todo custo (do silenciamento feminino), chamados de homens feministas? E, quando são confrontados por mulheres feministas não-liberais (marxistas, interseccionais, radicais etc), eles apelam para tentativas falhas de xingamentos como "feminazis", "misândricas", "femistas" ou, ainda, no auge de suas sedes por apoio, usam termos misóginos ou machistas, chamando as feministas que não dão a carteirinha deles de "vadias", ''putas", "mal amadas", entre outros termos advindos da raiva - misógina - momentânea. 

Eu já me questionei sobre tudo isso e, confesso, minha problematização não foi das melhores em se tratando de ver com bons olhos essa atitude masculina androcêntrica. A conclusão que eu cheguei é que lugar de homem no feminismo é fora. É justamente fora do movimento feminista que o homem deve demonstrar seu apoio para com a luta das mulheres. E o termo mais adequado para o homem aliado da causa feminista é o de "pró-feminista", mais adiante explico o porquê disso.

Não precisa se espantar e sair gritando aos quatro cantos do universo que "homens também podem ajudar na causa feminista", amiga feminista liberal, porque eu sei disso. E continuo achando que homem não tem lugar dentro do movimento feminista, pois é problemático assumir protagonismo masculino no único espaço onde as mulheres devem ter suas vozes priorizadas, legitimadas e visibilizadas. Vamos entender mais essa questão antes de chorar pelo sofrimento dos homens sem carteirinha de feministas?

Em questões de gênero, homens têm toda a sociedade patriarcal a favor deles. Da voz deles. Dos direitos deles. Dos privilégios de gênero para eles. Homens são por homens. Leis são, em massa, feitas por homens para homens. Para defender homens, para beneficiá-los, para legitimar o poder social deles sobre as mulheres. Homens têm toda uma estrutura social que os empoderam como sujeitos de si mesmos, enquanto as mulheres são ponderadas, são preteridas, são "o outro". Mulheres são deixadas à margem, são silenciadas, são subjugadas, têm suas experiências de mundo deslegitimadas pelo androcentrismo - visão de mundo masculina. MACHO JÁ TEM MUITA VOZ, socialmente legitimada e institucionalizada, ele não precisa de participação dentro do movimento feminista, a participação dele É FORA, é na sociedade, é nos espaços que ele já lidera culturalmente. 

Tenho certeza que muitas mulheres, apesar de entenderem isso, se farão de ingênuas e argumentarão a favor de macho no movimento. Porque não basta o macho opinar sobre a vida das mulheres historicamente, em sociedade, tem também que pautar o movimento feminista, o único espaço que devia ser liderado pelas mulheres. Essa necessidade de enfiar macho no movimento é um comportamento heteronormativo, é resultado da heterossexualidade compulsória que faz as mulheres héteros internalizarem que são apêndices de machos, a tal ponto que têm que viver ao redor do pinto de um. Parece duro né? Pois é, é isso que eu penso quando vejo mulher silenciando outra por causa de macho. Para legitimar que macho tenha voz EM UM ÚNICO espaço protagonizado pela figura feminina. Parem de esperar por príncipes de cu e bunda e protagonizem a história de suas próprias vidas, mulheres. Dá para gostar de macho, dá para ser hétero, sem precisar ser desesperada por homem. Para que isso de ter homem em tudo? Feminismo não é falocentrismo. E por que citei mulheres héteros? Porque não vejo mulheres lésbicas, bissexuais, pansexuais e assexuais, em massa, discutindo com outras mulheres para que homens tenham a passabilidade de uso do termo feminista.

Eu preciso do feminismo, por isso eu sou feminista. Mas eu não queria precisar do feminismo, pois eu queria não sofrer violência só por ser mulher. O feminismo só existe porque existe violência contra a mulher, porque mulheres insubmissas séculos atrás decidiram levantar suas vozes contra a dominação masculina. Eu sou feminista, mas eu queria não precisar ser. Ser feminista cansa. Ser feminista machuca. Ser feminista liberta, mas não é nada fácil. Feministas sofrem diversos tipos de violências, abusos, ataques e ameaças. Que mulher feminista militante nunca recebeu uma ameaça de estupro "corretivo"? Que mulher feminista militante nunca recebeu ameaça de assassinato? Que mulher feminista militante nunca foi ameaçada por expressar seus ideais? Que mulher feminista militante não é constantemente associada a figura da ''mulher-macho'', ''mulher mal amada'', ''mulher vadia''? Que mulher feminista militante não tem que lidar com a discriminação constante contra as feministas? Com todos os estigmas sociais que a palavra feminista carrega consigo? Mas vamos pensar nos homens feministas, nos revolucionários, sapientes, eloquentes homens salvadores das mulheres.

O homem pode ser o maior feministão que você respeita, mas na hora que o calo apertar, que os privilégios dele forem postos a prova, somos nós por nós... Na hora de apoiar as vítimas de estupro, somos nós por nós. Na hora de levantar a voz contra o feminicídio, somos nós por nós. Na hora de problematizar piadas misóginas, somos nós por nós. Na hora de apoiar umas as outras pela violência sentida na pele, somos nós por nós. Na hora de articular grupos de apoio para ajuda psicológica ou financeira para mulheres em situação de vulnerabilidade, somos nós por nós. Machos são criados para desprezarem os sentimentos das mulheres a medida que são ensinados a ignorarem a dor que eles causam a elas, a misoginia (violência física, verbal e sexual contra a mulher) é a prova disso. Eles nunca saberão de fato o que nós passamos. É nós por nós. A ajuda deles deve ser praticada de fora, isto é, como apoio, não como algo intrinsecamente ligado as pautas feministas, caso contrário, estamos fudidas. Todos os avanços femininos foram conquistados graças a luta feminina-feminista. Não apaguem nem deslegitimem a luta histórica das mulheres revolucionárias que não ficaram a espera de machos pela salvação do gênero feminino. 

Macho que quer apoiar o movimento não vai chorar na internet carteirinha de feminista. Macho que fica insistindo para ser chamado de feminista é macho escroto que só quer silenciar mulher, "pegar'' mulher ou ganhar ''biscoito'' de mulher, ao bancar o desconstruidão. O homem, de forma geral, está tão acomodado com seus privilégios de gênero que ele quer impor um lugar de fala/protagonismo até em um movimento - Feminismo - que luta contra um sistema opressor do qual ele é privilegiado e ocupa uma posição de poder. Homem que quer apoiar o movimento ignora o título de feminista, pró-feminista... e procura se desconstruir e desconstruir os amigos, sem esperar biscoito por isso. Do que adianta falar que é um homem feminista na internet e no bar rir das piadas machistas dos bróders? Do que adianta falar que é um homem feminista na internet e em casa deixar todo serviço doméstico para a mãe, irmã, avó, esposa? Do que adianta falar que é um homem feminista na internet e no trabalho achar justo a mulher ganhar menos que seus colegas masculinos? Do que adianta falar que é um homem feminista na internet e passar a mão na cabeça do amigo estuprador, assediador? Do que adianta falar que é um homem feminista na internet e ser somente em seus discursos bonitinhos na internet?

Um macho, ou melhor, mais um, me chamou de feminazi, ou seja, me comparou aos nazistas, só porque eu defendo a ideia de que homem pode ser, no máximo, pró-feminista, jamais feminista. Para quem faltou as aulas de português: o PRÓ é um prefixo que, aliado a palavra feminista, indica APOIO. Vou repetir: a p o i o. Não é exclusão, segregação, negação de ajuda ou de apoio como muita gente pensa. É exatamente reiterar o papel do homem na causa: o de apoiador, aliado. Por que é importante deixar em evidência o papel do homem pró-feminista enquanto um homem que apoia a causa, não a lidera? Porque os homens, em geral, querem reclamar do protagonismo que eles não têm. Qual a necessidade de um homem dar uma palestra sobre empoderamento feminino sendo que existem inúmeras mulheres feministas que podem ocupar esse espaço com sua voz?  Qual a necessidade de ter homem em grupos feministas fechados para mulheres desabafarem a violência que sofrem somente por serem mulheres? Qual a necessidade de homens ficarem decidindo o que é ou não relevante para o movimento feminista? Que pautas nós, mulheres, devemos ou não levantar? Os homens desconstruídos adoram falar de feminismo, mas só na internet e nos espaços que deveriam ser ocupados pelas mulheres. Usar do espaço e voz que eles JÁ TÊM para tornar a sociedade mais receptiva ao feminismo é vandalismo. 

O pior, para mim, não são nem esses machos escrotos que ficam chamando de "feminazi" qualquer mulher feminista que os problematizem, mas as mulheres que insistem em enfiá-los no movimento. Eles não têm vez e nem voz para mim, logo pouco me importa a cagação de regra deles. O que fico enojada é com a quantidade de mulheres que fecham os olhos para o silenciamento das companheiras de luta para "defender" a carteirinha de feminista desses machos a todo custo. 

Querem machos no movimento para quê? Para que eles, em manifestações com CENTENAS de mulheres, ganhem mais visibilidade e virem assunto nacional? 
Querem machos no movimento para quê? Para que eles decidam quem é feminista de verdade, igual decidem quem é "mulher de verdade"? 
Querem machos no movimento para quê? Para que eles, quando contrariados, ao invés de nos chamarem de vadias, nos chamem de feminazis? 
Querem machos no movimento para quê? Para que eles sejam convidados, em eventos diversos, para falarem sobre empoderamento feminino? Sobre aborto? Sobre libertação da sexualidade feminina? Sobre cultura do estupro? Sobre como é sofrer diariamente com a misoginia? Como é ganhar menos só por ser mulher? Como é ser impulsionada a ser mãe pela maternidade compulsória? Como é ser silenciada numa sociedade que oprime mães? Como é ter o corpo vendido, usado como moeda de compra e venda? 
Querem machos no movimento para quê? Para que eles falem nos nossos espaços o mesmo que nós já falamos, porém ganhando a visibilidade que nós não temos? 

Entendam, negar protagonismo não é o mesmo que negar apoio. Apoio não vem de dentro, mas de fora do movimento. É quando o macho se dedica a falar de feminismo, de machismo, de patriarcado, de privilégios masculinos, entre outros, em casa, na rua, no trabalho, na escola, na universidade, com os amigos, NÃO para as feministas. O apoio masculino real é importante e deve ser valorizado, mas são superestimado. 

Homens que querem apoiar a luta feminista, ou vocês são machos pró-feministas que buscam falar de machismo, de feminismo, de privilégios masculinos para seus amigos misóginos (o que é muito importante) ou vocês são machos escrotos, misóginos e roludões do rolê que ficam na internet ofendendo mulheres feministas para serem chamados de feministas e se sentirem no direito de nos ensinarem o "verdadeiro movimento feminista'' pautado por vocês, os dois não dá.

Quando eu digo que não quero ter filhos...



A maternidade é socialmente compulsória e romantizada enquanto a paternidade é opcional. Se você é mulher e diz que não quer casar nem ter filhos, as pessoas lhe olham como se você fosse uma alien ou, ainda, debocham da sua decisão dizendo que você COM CERTEZA vai mudar de ideia. Se você é um macho e diz o mesmo é TOTALMENTE COMPREENSÍVEL QUE VOCÊ QUEIRA ''APROVEITAR A VIDA'', NORMAL PORQUE VOCÊ É HOMEM E HOMEM PODE NÉ? 

É absurdo como o discurso da mudança de ideia e de que você é uma pessoa muito jovem muda quando muda o gênero do sujeito que não deseja ter filhos. É absurdo e sexista machista. Por que somente aos homens (cisgêneros) é dado o direito de recusarem a paternidade? Biologicamente eles são pais, afinal as mulheres (cisgêneros) não engravidam do dedo, contudo porque esse fator biológico não é usado para determinarem seus papéis sociais? Porque não há uma regulação da vida masculina como há da feminina. Porque homens podem escolher se dedicarem aos estudos, podem almejar uma carreira de sucesso e optarem se relacionar com várias mulheres sem a necessidade de uma relação fixa, estável e com frutos biológicos (filhos) para a realização deles como homens, para sua felicidade plena. Quem já viu alguém chegar para um homem que disse que não quer ter filhos e dizer "mas você só será feliz plenamente e um homem completo e realizado quando tiver filhos... ter filhos é o sonho e destino de todo homem''? 

Tenho, no momento da escrita desse texto, 22 anos, sou graduada, iniciei minha pós-graduação, estou a espera da abdução, não tenho tempo nem vontade de ter filhos, se hoje eu decidisse fazer uma laqueadura, eu NÃO poderia, porque para o Estado que regula meu corpo e minha vida eu sou muito nova, eu precisaria ter mais de 25 anos, ser acompanhada psicologicamente durante meses com alguém destinado a me fazer mudar de ideia e ainda precisaria de um acordo com Drácula, meu companheiro trevoso, para o Estado decidir liberar minha cirurgia. Agora, se eu, hoje, estivesse grávida, eu não seria nova demais nem imatura o suficiente para ser mãe, o mesmo Estado me obrigaria a ter um filho indesejado. O mesmo Estado me forçaria a ser mãe com 22 anos. Minha sorte, nessa situação hipotética, é que meu macho e eu somos darksexuais, nossa relação íntima é com as trevas e a solidão. 

Quando eu digo que EU não quero ter filhos não significa que eu não goste de crianças. 
Quando eu digo que EU não quero ter filhos não significa que eu estou fazendo apologia ou campanha para impedir que outras pessoas tenham filhos. 
Quando eu digo que EU não quero ter filhos não significa que eu tenha ódio por crianças. 
Quando eu digo que EU não quero ter filhos significa que EU, simplesmente, não quero ter filhos, que eu não tenho vontade ou necessidade de ser mãe. 

Ser mulher é diferente de ser mãe. Ser mãe deve ser uma escolha consciente e planejada e NÃO uma obrigação para cumprimento de uma convenção social ou de uma fatalidade biológica. A sociedade ou o Estado não estão preocupados com a felicidade plena da mulher ou com uma possível futura solidão quando interferem na escolha da mulher em não ter filhos. As pessoas se assustam com uma escolha contrária as convenções. Principalmente quando essa escolha vem de uma mulher. É isso o que a sociedade teme: a liberdade de escolha feminina, sobretudo quando essa escolha fere o status quo ao quebrar padrões de gênero. 

Lizandra Souza.

Cara amiga feminista...


Cara amiga feminista

Não se condene demasiadamente por reproduzir machismo inconscientemente e só depois perceber que o reproduziu, não sinta que é menos feminista porque seu relacionamento é abusivo e você não sabe como sair dele de fato, não pense que é hipócrita só porque você têm amigas e amigos que não compactuam com o feminismo (porque você não tem escolha e não quer estar sozinha), não se culpe por não saber como desconstruí-los (ainda), apesar de tentar e de problematizar o que falam, não se menospreze por não conseguir se livrar totalmente dos padrões de feminilidade, não se ache burra por não entender ainda as teorias de gênero ou as várias vertentes feministas. Você não precisa ter uma vertente pra ser feminista. Você não precisa conhecer as teorias que embasam as vertentes feministas para se dizer feminista. Você precisa conhecer vertente/teoria pra falar sobre ela, para se posicionar politicamente de um determinado lado, não para se legitimar enquanto feminista. 

É interessante que você conheça vertentes e teorias para o próprio desenvolvimento e enriquecimento da sua vivência enquanto alguém que busca contra-hegemonizar o sistema patriarcal, mas isso é com o tempo, no seu tempo, de acordo com suas vivências e oportunidades. Você não é menos feminista porque não domina teorias e/ou ainda não tem uma vertente definida. Você não é menos feminista porque mesmo se assumindo feminista as vezes você ainda reproduz machismo. Você não é menos feminista por não conseguir desconstruir todos a sua volta. Você não é menos feminista porque não conseguiu, ainda, nem desconstruir a si própria como gostaria.

Não se cobre perfeição, esse mundo virtual de tombamento e utopias em que as feministas de ''verdade'' são heroínas, divas e poderosas que nunca reproduzem machismo, que preferem ficar em casa sozinhas que sair com amigos ignorantes ou antifeministas, que se livraram de todos esteriótipos de gênero e dominam tudo acerca do movimento feminista só existe mesmo na internet. Ninguém nasce feminista: torna-se. É um aprendizado para a vida toda! 

Grata, a direção (e sua saúde mental).

Lizandra Souza.

Amiga, você merece mais que esse abuso travestido de amor


Papo reto, miga! 

Você não é indesejável como ele lhe faz crer e ele não é sua única opção. Você não está louca só porque passou a apontar as falas problemáticas dele. Você não é histérica porque reclama das atitudes grosseiras dele. Você não é exigente demais por querer respeito, empatia e atenção. Você não é romântica-idealista por desejar reciprocidade. Você não é "sem valor" porque se veste como gosta e não como ele quer. Você não é ''oferecida'' porque não abriu mão das suas amizades masculinas por conta do ciúme doentio dele. Você não merece apanhar porque não o obedeceu como se ele fosse seu proprietário e você seu objeto pessoal-sexual. Você não é insensível, fria e egoísta porque nem sempre está disposta ou com vontade de transar e, por isso, se ele lhe trair, a culpa será sua. 

Você não merece ser agredida, humilhada, inferiorizada, subjugada, censurada, limitada e culpabilizada por alguém que quer lhe controlar e manipular para fazer você de gato e sapato para inflar o próprio ego. Você não merece um amor meio bosta, meio bolsominion, que precisa lhe diminuir enquanto mulher para que você aceite abusos para não ficar ''sozinha'' ou sem ele. 

Dos amores que vão e vêm, apenas um merece estar sempre com você, em qualquer situação: o próprio.

Lizandra Souza.

Brancos de turbante: racismo e apropriação cultural capitalista


Imaginem a seguinte situação... Uma moça branca com câncer inventa uma fanfic em que uma mulher negra desconhecida a para no meio da rua e começa a problematizar seu uso de turbante. Enredo digno de Malhação. Ela, mesmo constrangida, dá uma resposta "lacradora" para a mulher negra problematizadora e recebe apoio de geral. A internet se mobiliza, parte acredita na fanfic da branca, outra parte não. Uma pauta do movimento negro é banalizada (apropriação cultural) em discussões rasas acerca da ideia de brancos usarem ou não turbantes e a branquitude se revolta e faz campanha para usar em paz adereços da cultura negra. "Vai ter branca de turbante sim": a resposta das mulheres brancas quando são confrontadas com a problemática da apropriação cultural só mostra o racismo nosso de cada dia. Quem dera os brancos comprassem briga contra o racismo como compram para usar um turbante na cabeça né não?

Uma coisa é uma mulher branca por desconhecimento, ignorância ou influência da indústria capitalista da moda usar acessórios ou objetos da cultura negra* sem saber que ao usá-los ela está desagradando uma parte dessa população que acredita que é banalização de seus símbolos religiosos e de resistência tão marginalizados quando são usados por negros, mas quando por brancos se transformam em material cult. NINGUÉM NASCE SABENDO! Outra coisa bem diferente é branca mimada acostumada a usar o que quer, a ser bem-vista com qualquer estilo de cabelo, maquiagem, acessórios... ficar debochando de mulheres negras que problematizam a apropriação cultural feita pela indústria capitalista e as disparidades sociais de tratamento entre brancos e negros consumidores da cultura negra. NINGUÉM VAI IMPEDIR BRANCA de usar o que quer e gosta. Parem com essas perguntas chatas e sonsas de ''sou branca, não posso usar isso?'', como se tivesse alguém impedindo! Ora, desde quando branca é impedida de usar algo que poça/queira...? Maquiagem, cor de roupa, acessórios, estilo de cabelo, caralho a4 sempre foi bem visto em gente branca. 

O maior problema nem é o uso por si só, por mais que haja a ressignificação e banalização feita pela apropriação capitalista, cultura nenhuma é homogênea e estável, de uma forma ou de outra ela vai ser apropriada e internalizada pelos atores sociais... não é o uso ou não uso do turbante por gente branca, por exemplo, que vai desestabilizar a dominação da branquite em sociedade! O problema consiste nas assimetrias de comportamentos e leituras sociais dos indivíduos que (re)produzem essas culturas, conferindo aos sujeitos historicamente desprivilegiados nas relações de dominação um lugar de marginalização cultural, como ocorre com a população negra, indígena e/ou não-branca. 

"Ain mas posso ou não usar o que eu gosto?".
Querida, se você se sente bem usando algo MESMO TENDO CONSCIÊNCIA que existem mulheres negras que se incomodam porque nelas tal objeto/acessório é marginalizado, é motivo de piada racista, exclusão social, preterimento em vaga de emprego etc apenas repense no seu ''gosto'' e veja que não se trata de PODER, mas de ESCOLHER (ter ou não empatia). 

*O tipo de turbante varia de acordo com o formato do nó que é dado no laço e na estética que fica sustentada na cabeça, por isso turbantes da cultura afro usados em rituais religiosos, por exemplo, não devem ser confundidos com os turbantes árabes, turcos etc.

Lizandra Souza.